quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

Os personagens de São Caetano do Sul
As histórias do taxista Adalmir Silva, 72 anos
Por: Priscila Gorzoni


                                 Foto/crédito: Priscila Gorzoni


De São Caetano do Sul à Tabatinga no Amazonas

Quando penso no taxista mais aventureiro que conheci durante essa série de entrevistas com os taxistas de São Caetano do Sul lembro-me imediatamente de Adalmir Silva, 72 anos, taxista há mais de 40 anos do Ponto do bairro Vila Gerti.

Adalmir nasceu em uma cidade do interior de São Paula chamada Jaborandi e veio para São Caetano do Sul em 1968. Assim que chegou aqui com a família morou no bairro Olímpico, que na época era conhecido como Morro dos Ventos Uivantes, e de lá nunca mais saiu.

A profissão de taxista apareceu em sua vida por acaso. Ele era o motorista do dono da Padaria Nova Iorque, que fica na Rua. Paraíso e em frente havia um Ponto de Táxi, mas Adalmir não tinha condições de comprar o ponto por isso oferecia os seus serviços como prestador de serviço. Por meio desse trabalho surgiu a oportunidade de prestar serviços como motorista para a General Motors (GM) e foi lá que ele fez uma das maiores viagens de sua vida. “Fui de São Caetano do Sul até Tabatinga no Amazonas e ganhei muito dinheiro. Nessa viagem levei 75 dias, usei carro, avião e barco. O trabalho foi pago por uma empresa de Brasília e o Ministério dos Transportes em Brasília. Você imagina onde é Tabatinga no Amazonas? Olha de Manaus até lá são 17 dias de barco, é divisa do Brasil à Colômbia a Peru. Eu fui viajando por rodovias e fluvial. Fui passando pelos rios, mas foi uma viagem gostosa, eu vi muitos índios, bichos, jacarés, macacos, uma beleza, passei na mansão da miss Brasil, Martha Rocha”, narra.

Realmente eu não imagino, mas durante a entrevista que fiz com o Adalmir acabei o conhecendo bem e me encantando pela trajetória desse taxista aventureiro. “Sair para o mundo é muito bom, conheço o Brasil inteiro. Conheço tudo e me dou bem com todos. Sou comunicativo, se posso ajudar ajudo se não, não ajudo”, conta.

Mais do que qualquer uma de suas aventuras nesses 40 anos de táxi, o motorista considera como a sua vivência mais relevante à viagem realizada até Tabatinga e sem dúvida alguma ele tem toda a razão. 


Uma aventura no meio da mata


Adalmir tinha 30 anos quando fez essa viagem e conta que andou de navio até Belém, e levou 16 dias até chegar, onde fica o Primeiro Bis (Batalhão da Infantaria e Selva) em Manaus. A sua função era pegar o carro da ambulância do Estado e transportá-lo em segurança até o quartel do exército de Tabatinga. “Passei primeiro pelo Primeiro Bis e depois segui para o Primeiro Batalhão de Tabatinga, Peru, Colômbia e fiquei na cidade de Letícia, que faz fronteira com o Brasil. As ruas são frutíferas, mas não pode jogar pedra para derrubar a fruta no chão, se acontecer isso a pessoa é multada, paga a multa. Fiz muita amizade e me diverti”, relata.

Dessa viagem o que não faltam são as lembranças e algumas marcaram mais o taxista, entre elas ver os bichos, as plantas exóticas e os habitantes da região. “Peguei a planta Vitória Régia na mão, nadei no Rio Madeira, Solimões, comi alimentos exóticos. Tenho muita vontade de voltar lá”, conta.

Algumas aventuras perigosas hoje tiram risadas do motorista, entre elas uma ocorreu quando ele estava indo para Porto Velho. “Lá tem muito jagunço, pessoas escravizadas. Dei carona para algumas pessoas no caminhão, mas não sabia quem eram. De repente os pistoleiros começaram a correr atrás do meu caminhão para pegá-los e eu precisei correr muito. Precisei correr e jogá-los para fora senão iam matar todos. Pistoleiro existe. Recolhi o pessoal e eles voltaram para a fazenda. Lá existe escravidão e isso me marcou”, relembra.

Outra situação no mínimo exótica que o marcou aconteceu em uma cidade chamara que Tocantinópolis, no caminho de quem vai para Marabá. “Sem querer atropelamos uma Ema, elas estavam em quatro, eram grandes e por sorte não matou nenhuma. Uma delas caiu então pegamos, deitamo-la, passamos barro nas pernas, colocamos taboca na perna dela e a soltamos, ela ficou com uma bota. Ela saiu correndo e sumiu na mata. Depois demos de encontro com um enxame de abelhas, acendemos o farol, fechamos todos os vidros e passamos de carro no meio do enxame. Se uma delas entrasse no carro nos matava”, relata.


A compra do Ponto de Táxi


A viagem a Tabatinga no Amazonas rendeu tanto dinheiro que com ele Aldemir conseguiu comprar o Ponto de Táxi e o carro em 1974 e nunca mais largou o serviço de taxista. “Consigo manter a minha família tranquilamente com as 7 a 12 viagens que faço por dia”, conta.

No táxi Aldemir escuta muitas histórias, conversa e costuma dizer que o carro se torna um confessionário. “A gente ouve muita coisa, mas não pode dizer, e é gostoso ouvir essas conversas. Tem gente que quer se soltar e se expandir. Elas se abrem, é muito bom e a pessoa que trabalha com isso não envelhece. O ideal no táxi é manter o respeito, a educação e tratar bem a pessoa. O táxi tem o taxímetro e se ele marca aquilo, é aquilo. O valor que cobramos é o justo e honesto”, relata.

Sobre os medos, o taxista diz não ter até porque já foi assaltado várias vezes, inclusive em um deles levou um tiro. “Fui ajudar uma mulher grávida no Heliópolis, que já é São Paulo, e quando avisei que o preço era outro, o sujeito que estava com ela retirou o revólver e me deu um tiro na perna e eu nem cheguei a ver a mulher, mas faz parte, trabalhar é isso. Já vivi muitas aventuras e adoro, não pode ter medo das coisas. Para se dar bem na vida tem que se centrar, se você não trabalha não arruma nada na vida”, finaliza.  

Texto publicado na revista Raízes 54.


*É jornalista, pesquisadora, historiadora. Formada em jornalismo pela Universidade Metodista, com formação em ciências sociais pela USP e Direito pelo Mackenzie, tem especialização em Fundamentos e Artes pelo Instituto de Artes da UNESP de São Paulo e Mestre em história pela PUC de São Paulo. É autora de 11 livros, entre eles Abre as portas para os Santos Reis da Editora Fundação Pró-Memória, Animais nas Batalhas pela editora Matrix e Os benzedores que benzem com as mãos da editora UCG.

 

 (ESSE TEXTO NÃO PODE SER COPIADO SEM OS DEVIDOS CRÉDITOS DE AUTORIA, CONFORME A LEGISLAÇÃO DE DIREITOS AUTORAIS LEI 9610, de 19 de fevereiro de 1998, "Dos Direitos Morais do Autor", Artigo 24, Inciso II. POR FAVOR, NÃO COPIEM, COMPARTILHEM O LINK. OBRIGADA)       
Lugares curiosos
O Túmulo da menina Neves
Por: Priscila Gorzoni



                                                    Foto/crédito: Priscila Gorzoni  
Em todos os cantos do mundo existem lugares inusitados. Locais que destoam do tempo, guardam segredos, mistérios ou que parecem esquecidos de uma época. As metrópoles escondem esses locais, que muitas vezes passam despercebidos em nossa vida acelerada. Esses locais podem ser chamados de lugares de memória[i], que são antes de tudo, restos. Eles nascem e vivem do sentimento  de que não há memória espontânea, que é preciso criar arquivos, manter aniversários, organizar celebrações, entre outros acontecimentos. Também podemos chamar esses locais de ilhas de passado conservadas[ii]
Conhecer um pouco destes locais é entrar nos lugares da memória ou nas ilhas de passado conservadas. É uma experiência fundamental para compreender a história e a memória da cidade e dos moradores que viveram ali.
Em São Paulo encontramos vários destes pontos como, por exemplo, o Cemitério da Consolação. Como escreveria o sociólogo José de Souza Martins, em História da arte no cemitério da Consolação: “O cemitério da Consolação é um espelho em que os vivos se refletem e se encontram na memória dos mortos. Ali, no silêncio definitivo, podem os mortos ser interrogados e compreendidos no seu legado a este país e a São Paulo, estado e cidade”.
Estendo essa análise aos demais cemitérios, entre eles, o Cemitério da Saudade, no Bairro da Cerâmica, que foi criado no dia 3 de outubro de 1932. Esse foi o segundo cemitério criado em São Caetano do Sul e é também o maior. Não é um cemitério apenas de túmulos, mas de gavetas, gavetões e jazigos. Em dia de movimento, esse cemitério pode até receber 30 mil visitantes!
Nas décadas de 1930, era comum no Bairro São José, ser avistadas procissões de caixões. Os familiares e parentes dos mortos andavam quilômetros a pé carregando o o esquife com o falecido. Em alguns momentos paravam deixavam o caixão no chão e tomavam água no bar. Depois, retomavam a via sacra, carregando o caixão que se destinava ao cemitério.
Alguns pormenores são dignos de nota no Cemitério da Saudade, um deles é o Túmulo da menina Neves, um dos mais visitados. Chegam pessoas de várias partes de São Paulo, em busca de graças e milagres para suas aflições. Por isso esse túmulo  despertou-me maior interesse. Estive neste cemitério fotografando e coletando histórias. Algumas vezes encontrei pessoas notórias e variadas, de visita à Capela da Família Ribeiro. Ela fica bem próxima da Capela do Cemitério e está sempre limpa e com flores frescas, sempre bonita.
            Para os que não sabem, o cemitério da Saudade surgiu da desapropriação do Ato 17, de 9 de julho de 1931, assinado pelo Prefeito-intenventor, Armando Setti. Era uma área de 20 metros quadrados, dentro do imóvel “Meninos e Meninos Novo”, na época situada no Bairro da Cerâmica, que, hoje, faz parte do Bairro São José.
O primeiro nome dado ao Cemitério da Saudade foi Necrópole da Saudade,i dado ao Cemitério no dia 3 de outubro de 1932, por meio do Ato 38, do mesmo Prefeito Armando Setti, de São Bernardo.
            O Bairro São José é cercado de religiosidade e histórias. Uma delas é a da Menina Neves Nascimento Ribeiro, que morreu aos 11 anos de idade de tétano. Sua mãe, Rosalina do Nascimento Ribeiro ficou desesperada. Em menos de um mês, depois, Rosalina reencontrou a filha em uma sessão espírita, dizendo que estava feliz ao lado de Nossa Senhora. Era então ano de 1948. Neste encontro Rosalina contou que a filha pediu para a mãe construir uma capela para ela e relatou que estava fazendo milagres com Nossa Senhora. Sua fama ultrapassou fronteiras e, até hoje, a Capela é muito visitada. Pois, de acordo com os moradores vizinhos, milagres passaram a acontecer dias depois.
            Em 1948, os pais da garota Neves doaram um terreno de 18 m por 30 metros, para a construção da Igreja do Bairro. O pai da menina Neves, Adelino Ribeiro, morreu em 1951, ano em que as paredes da igreja prometida à filha estavam sendo erguidas. Sem a presença de Adelino, Rosalina deu continuidade ao empreendimento e recebeu a ajuda de toda a coletividade, que em sistema de mutirão ajudou a levantar a Paróquia Sagrado Coração de Jesus que fica na Rua Padre Mororó, no Bairro São José.

Box: Os cemitérios
Desde o final do século XVIII, mantinha-se o costume de enterrar corpos no interior das igrejas, pois esse era considerado um solo sagrado. Mas, tal costume já era criticado pelos higienistas. Eles diziam que esse hábito era perigoso à saúde. A presença constante de epidemias na cidade era o resultado da contínua manipulação dos restos mortais no interior das igrejas. Essa ação produzia mau cheiro e doenças microbacterianas.
Nem sempre os cemitérios eram espaços distantes ou destinados aos subúrbios das cidades. Na Europa do ano 1000 ao século XVIII, a proximidade do espaço dos vivos e o dos mortos era um traço importante da história das mentalidades e das sociedades tradicionais. Segundo Jean-Claude Schmitt em Os vivos e os mortos na sociedade medieval, no fim do Antigo Regime, os cemitérios das cidades foram esvaziados de suas ossadas e exilados para os subúrbios. Antes era costume ter os vivos em torno dos mortos. Nas aldeias europeias, no centro ficava a igreja paroquial, depois apertadas ao redor dela, as sepulturas do cemitério. Schmitt explica que entre o a igreja e a aldeia, o cemitério é, portanto, um lugar intermediário e desempenha um papel mediador.


[1] Termo definido por Pierre Nora no texto Entre memória e história: a problemática dos lugares.
[1] Termo citado por Maurice Halbwachs em A Memória Coletiva.

Referências Bibliográficas
MEDICI, Ademir. Migração e urbanização: a presença de São Caetano na região do ABC, Editora Hucitec, São Caetano do Sul, 1993.
NOVAES, Manoel Cláudio. Nostalgia, Editora Meca, São Paulo, 1991.
RUSSO, Alexandre Toler. Caminhos da fé: itinerário dos templos religiosos de São Caetano do Sul, editora Fundação Pró-Memória de São Caetano do Sul, São Caetano do Sul, 2004.
SCHMITT, Jean-Claude. Os vivos e os mortos na sociedade medieval, editora Companhia das Letras, São Paulo, 1999.

*É jornalista, pesquisadora, historiadora. Formada em jornalismo pela Universidade Metodista, com formação em ciências sociais pela USP e Direito pelo Mackenzie, tem especialização em Fundamentos e Artes pelo Instituto de Artes da UNESP de São Paulo e Mestre em história pela PUC de São Paulo. É autora de 11 livros, entre eles Abre as portas para os Santos Reis da Editora Fundação Pró-Memória, Animais nas Batalhas pela editora Matrix e Os benzedores que benzem com as mãos da editora UCG. 

Texto publicado na Revista Raízes 54







terça-feira, 3 de janeiro de 2017

Personagens ilustres de São Caetano do Sul
As histórias de José Carlos de Souza, o GCM Souza, 63 anos e há 27 trabalhando na Guarda.
Por: Priscila Gorzoni

                               Foto/crédito: Priscila Gorzoni



O GCM Souza, José Carlos de Souza, 63 anos e há 27 trabalhando na Guarda Civil Municipal (GCM) nasceu em São Bernardo do Campo e seus pais, José de Souza Lima e Evarista Nunes de Souza vieram de Juazeiro da Bahia em 1951. 
Os pais de Souza escolheram a região com o objetivo de encontrar opções de emprego. Por destino ou sorte José e Evarista se conheceram em São Bernardo do Campo. “Assim que meu pai chegou à cidade conheceu a minha mãe, eles tinham 21 anos. O meu pai trabalhava no garimpo na Bahia e quando chegou passou por várias funções de pedreiro a jardineiro. Já a minha mãe trabalhava em fábricas. Passados três anos eu nasci, sou o mais velho e o meu irmão que é mais novo se chama Carlos Roberto de Oliveira. Ele nasceu quando os meus pais ainda não estavam casados e então teve problemas para ser registrado. A vida inteira me preocupei em trabalhar, sempre caseiro e estudando para melhorar. Atualmente os meus pais tem 87 anos e moram em Juazeiro, todos os finais do ano os visito”, relata.

            Da infância Souza só se recorda de sempre ter trabalhado muito para ajudar os pais e estudado pouco. “Estudei até a quarta série e costumava pedir dinheiro nos faróis”, conta.

            Souza é casado há 33 anos com Valdete de Souza Lima, 53 anos com quem teve duas filhas, uma com 34 e a outra com 27 anos. “Conheci a minha esposa em São Caetano do Sul e ela era uma prima. Nossa família é toda daqui, do bairro cerâmica”, conta.

Profissionalmente antes de se tornar GCM Souza passou por várias empresas. “Com 19 anos comecei a trabalhar em fábricas, passei por várias delas como: Máquinas Piratininga, Armazéns Columbia, Brasinca entre outras. Um dos trabalhos que mais me marcou foi o de carregar os vagões de trens com algodões. Em 1979 sai das empresas e passei em um bar onde o dono era um amigo, que me perguntou se eu estava desempregado. Eu disse que estava e ele me indicou o tenente Novaes da Guarda da prefeitura para arrumar um emprego. Preenchi algumas fichas, recebi algumas instruções, a farda e um revólver e fui trabalhar de guarda de rua. Os guardas mais antigos orientavam os mais novos, sempre foi assim”, relata.

            O trabalho de guarda de rua não era fácil e Souza ficou em vários pontos da cidade, entre eles a rodoviária, o museu municipal, o Parque Chico Mendes, o Paço Municipal, entre outros. Nesse tempo ele recebeu uma proposta muito boa e foi trabalhar como segurança privado no Jardim São Caetano. Depois de um tempo, em 1987 voltou para a guarda municipal e lá permaneceu até os dias atuais.

Souza é um dos GCMs mais antigos e fez 28 anos de profissão esse ano (2016). “Pretendo ficar até quando aguentar, pois gosto de lidar com o público. Já passei por muitas dificuldades e sempre fui muito responsável pelos meus atos, nunca atirei em alguém. Você tem que ter equilíbrio. Antes de sairmos para as ruas fazemos um curso de 3 a 4 meses, recebemos instruções e a cada dois anos temos um treino de como usar a arma e as leis municipais. Nós temos que saber tudo, desde defesa pessoal até as coisas mais básicas”, explica.



* É jornalista, pesquisadora, historiadora. Formada em jornalismo pela Universidade Metodista, com formação em ciências sociais pela USP e Direito pelo Mackenzie, tem especialização em Fundamentos e Artes pelo Instituto de Artes da UNESP de São Paulo e Mestre em história pela PUC de São Paulo. É autora de 11 livros, entre eles Abre as portas para os Santos Reis da Editora Fundação Pró-Memória, Animais nas Batalhas pela editora Matrix e Os benzedores que benzem com as mãos da editora UCG.



 (ESSE TEXTO NÃO PODE SER COPIADO SEM OS DEVIDOS CRÉDITOS DE AUTORIA, CONFORME A LEGISLAÇÃO DE DIREITOS AUTORAIS LEI 9610, de 19 de fevereiro de 1998, "Dos Direitos Morais do Autor", Artigo 24, Inciso II. POR FAVOR, NÃO COPIEM, COMPARTILHEM O LINK. OBRIGADA)            



              










sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

Personagens importantes
João Fuzeto Filho, 64 anos, Guarda Civil Municipal de São Caetano do Sul (GCM)
Por: Priscila Gorzoni






As histórias inusitadas de Seu Fuzeto

Não são poucas as histórias que João Fuzeto Filho, 64 anos, Guarda Civil Municipal de São Caetano do Sul (GCM) há 26 anos coleciona em sua função de guarda.
Desde a infância a vida de Seu Fuzeto, como se tornou conhecido em toda a cidade, é só aventura. “Quando eu era criança o meu pai vivia querendo me bater, porque eu era muito rebelde. Sempre aprontei”, conta.
Durante a infância Fuzeto teve uma vida simples na cidade de Martinópolis, no interior de São Paulo onde nasceu com os pais João Fuzeto e Jandira Pereira e os quatro irmãos. No interior sua vida era trabalhar na roça, tratar dos animais, amansar os cavalos e brincar com os animais. Os pais criavam animais e plantavam para a sobrevivência da família. Tudo o que precisavam tiravam do quintal.
Com o tempo e as dificuldades financeiras seus pais resolveram tentar a vida na cidade, e em 1975 mudaram-se para São Paulo.
A família Fuzeto mudou-se para a Vila Ema, em São Paulo. “Moramos com um irmão que já estava aqui”, explica.
Em São Paulo Fuzeto conheceu a mineira Malvina Santos Fuzeto, com quem se casou, vive até hoje e com quem teve um filho chamado Ricardo.
Assim que chegou a São Paulo, Fuzeto começou a trabalhar em uma fábrica na Vila Ema. Na empresa passou por várias funções, entre elas a de operador de máquina, que não conseguiu ficar por muito tempo porque suas pernas doíam. “Fui ao médico que me disse se não mudasse de profissão, não me aposentaria”, relata.
Nessa época, com o objetivo de mudar de profissão começou a fazer curso de tiro e trabalhou durante oito meses como vigilante particular. Foi com essa experiência que conseguiu ingressar na guarda municipal. Na época ele tinha 34 anos, e para a sorte de Fuzeto a concorrência ao emprego era bem menor. O guarda procurou o tenente Silvino Fiori, responsável pelo setor. “Era uma época boa para trabalhar na guarda, porque não tinha muita gente e entraram comigo apenas mais sete candidatos. Atualmente deles só restaram eu e o Zequias”, relata.
Fuzeto relata que a postura do público era bem distinta da atual. As pessoas respeitavam mais os guardas, não existiam tantas leis e reclamações contra a categoria. “Nós éramos mais respeitados e obedecidos. Muitas vezes eu fiz vigílias em pontos da cidade sozinho e nunca me aconteceu nada. Hoje qualquer coisa as pessoas reclamam para o comando e somos corrigidos”, relata.
Para conseguir uma vaga na Guarda Civil Municipal Fuzeto tinha algumas vantagens sobre os outros candidatos, havia trabalhado e feito curso como vigilante particular. Nele o guarda aprendeu várias coisas entre elas a de manusear armas. Mas como não tinha habilitação precisou tirar, pois o vigilante tinha que saber dirigir.
Para conseguir o emprego o guarda foi até um posto da guarda que ficava no terminal rodoviário e falou com o policial. Depois que contou um pouco da sua vida e da necessidade de trabalhar na guarda, o policial fez uma carta para ele de recomendação. “Indicou-me levá-la ao setor da Guarda Municipal que ficava na prefeitura e então eu entreguei a cartinha para o professor José Gato, que na época era o responsável. Ele conversou comigo e disse que por ele, eu já estava aprovado, mas me pediu para voltar para uma entrevista. Eu então voltei no dia marcado, fiz testes e como sabia atirar me sai bem em tudo. Disse que gostava de trabalhar a noite, porque ninguém queria, então achei que teria mais chances. Como eu precisava de dinheiro nenhuma dificuldade que ele me apresentasse me assustava”, relata.
Com o objetivo de comprovar a vontade de Fuzeto para o trabalho o mandaram para fazer a vigilância do Clube Santa Maria. “Antes fizeram vários testes e em um deles me perguntaram se fizessem um barulho à 1 hora da manhã no Clube Santa Maria o que eu faria. Todos os guardas responderam que acenderiam a luz, mas falei que não porque se fizesse isso o ladrão me veria e atiraria em mim. O coordenador gostou da minha resposta e então me colocou para guardar o Clube Santa Maria”, conta.

Dos vândalos do Clube Santa Maria ao nascimento em um carro no Pronto socorro

O Clube Santa Maria era considerado um dos piores locais para os vigilantes cuidarem, porque diziam que lá tinham um grupo que entrava de madrugada e jogava os guardas dentro da piscina.
Mas Fuzeto precisava muito do trabalho então não vacilou e aceitou o desafio. Como ele tinha experiência com armas nada podia ameaçá-lo. “Em uma noite no Clube vieram 15 homens e tentaram me jogar na piscina, só que não conseguiram porque eu dei uns tiros e eles correram de medo. Nessa época eu era bem jovem, tinha 36 anos e fiquei durante alguns anos como guarda do Clube. Mais tarde entrou no comando o Clóvis e então me mandaram para a rua, me colocaram para fazer a guarda na rodoviária e no Pronto Socorro da Rua. Vital Brasil”, relata.
As histórias mais inusitadas Fuzeto viveu em seu segundo posto de vigilância, o Pronto Socorro da Vital Brasil. No local ele aprendeu muitas coisas, entre elas até a socorrer as pessoas. “Eu chegava às 5 horas da manhã no trabalho, em uma escuridão que só Deus e naquela época era só eu cuidando de todo o local. Então aconteceram muitas coisas comigo lá. Algumas me marcaram”, lembra.
A mais marcante aconteceu com um rapaz que estava internado no Pronto Socorro por problemas psiquiátricos. Ele estava no saguão aguardando o médico para atendê-lo, só que ao invés de ficar sentado, deixaram-no aguardar lá fora. “Quando de repente eu escutei uma gritaria e então me chamaram. Quando entrei vi que ele havia se atirado lá de cima da rampa de cabeça. Ele abriu a cabeça e quando caiu estava cheio de gente, todo mundo olhando e os miolos dele espalhados pelo chão, muito sangue. Ninguém tinha coragem de pegar o rapaz. E o pior era que a maca não descia onde estava o corpo e eu então tive que pegá-lo no colo, levá-lo até a maca, subir a rampa para o médico passar a faixa na cabeça dele. Mas assim que terminou de passar a faixa ele deu um último suspiro e morreu”, relembra.
Outro caso que marcou Fuzeto foi o do nascimento de um bebê dentro do carro. “Era de madrugada quando um homem chegou dirigindo um carro antigo e passou na frente do pronto socorro. Saiu gritando que a cunhada dele estava tendo um bebê e onde estava o médico. Eu expliquei que os médicos estavam lá dentro e que ele precisava descer a mulher do carro para colocarmos na maca. Quando abri a porta do carro a mulher já estava ´ganhando`(sic) a criança. O menino nasceu ali, dentro do carro e eu fiquei muito emocionado, foi chocante”, relata.  
O guarda conta que aprendeu muita coisa no Pronto Socorro, vendo as enfermeiras desempenhando as suas atividades e as defendendo dos ataques dos pacientes com problemas mentais. Não era fácil, mas ali foi uma escola para ele.

Um estanho no terminal rodoviário e o caso da garça do parque ecológico

Mais tarde Fuzeto foi trabalhar no terminal rodoviário da cidade e também passou alguns momentos delicados. “Lá eu ficava a madrugada inteira sozinho fazendo a vigilância. Eu fazia ronda na parte de baixo e na de cima. A lanchonete ficava aberta até á 1 hora da madrugada. Eu conhecia todos os motoristas e um dia um dos ônibus chegou ao ponto final e um senhor de capa desceu, mas tinha um rapaz lá dentro que não queria descer. Eu então o fiz sair à força, ela estava drogado e saiu correndo. Mas o senhor de capa estava armado, logo percebi e tive receio, pois não sabia que era um policial à paisana. Até eu descobrir passei muito medo dele ser um bandido e estar com o rapaz”, explica.
Naquela época a Guarda Municipal não tinha rádio e nem viatura para dar apoio aos guardas, por isso os policiais tinham que resolver os problemas sozinhos.
Fuzeto trabalhou em outros locais como a Cidade das Crianças e o parque ecológico. No primeiro teve até que fazer um salvamento e graças a ele o homem sobreviveu.
Ele estava fazendo a ronda quando de repente viu uma viatura parar e correr para uma das casinhas que ficava dentro da Cidade das Crianças. “Eles tentavam socorrer um funcionário que tinha a pressão alta e havia comido demais e isso lhe fez mal. Ele então engasgou, caiu de bruços e quando eu cheguei lá e o vi assim com a minha experiência de Pronto Socorro o levantei e fiz massagens na barriga dele. Ele então soltou a carne que estava entalada na garganta e sobreviveu”, relata.
No parque ecológico a história mais engraçada de Fuzeto envolve o salvamento de uma garça. “Uma vez uma garça fugiu do parque e foi parar no cemitério das Estadas das Lágrimas, que fica ao lado. Ela era grande e corria muito, era muito difícil pegá-la e só tinha eu para fazer isso. Corri no cemitério atrás dela até que consegui pegá-la com cuidado e levá-la de volta para o parque”, diz.
Fuzeto conta que sua vida daria um livro e eu não tenho dúvidas disso.  Mas antes de escrevê-lo, o guarda deseja se aposentar e voltar para a roça, para as suas raízes.



 *É jornalista, pesquisadora, historiadora. Formada em jornalismo pela Universidade Metodista, com formação em ciências sociais pela USP e Direito pelo Mackenzie, tem especialização em Fundamentos e Artes pelo Instituto de Artes da UNESP de São Paulo e Mestre em história pela PUC de São Paulo. É autora de 11 livros, entre eles Abre as portas para os Santos Reis da Editora Fundação Pró-Memória, Animais nas Batalhas pela editora Matrix e Os benzedores que benzem com as mãos da editora UCG. 

Fonte: Texto publicado na Revista Raízes 54




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