sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

Personagens importantes

Décio Caparroz: o artista dos entalhes
Por: Priscila Gorzoni



Aos poucos os carrinhos, vagões de trens, jardineiras ou arabescos vão surgindo na madeira que recebe os primeiros toques dos formões e das goivas. Do atelier vem o barulho ensurdecedor das batidas na madeira. Em alguns momentos esse ruído silencia, mas depois ele volta com força total.

No controle das ferramentas que deslizam pela madeira clara e cheirosa está o artesão Décio Garcia Caparroz, 73 anos, que nasceu no dia 23 de abril de 1940 em São Caetano do Sul e faz entalhes desde os 11 anos de idade.

A vida de Décio está intimamente ligada à arte de entalhar em madeira. Ele faz de tudo: de placas para churrascarias, portas de fazenda, até pequenas esculturas, sempre em madeira. Um de seus últimos trabalhos foi à réplica, em madeira, da Igreja Metodista que fica na Rua. Amazonas, em São Caetano do Sul. O trabalho fez tanto sucesso que o pastor pediu para o artista doá-la para a igreja.

Qualquer trabalho que faça em madeira é fácil, Décio manipula com maestria as ferramentas de marcenaria e as madeiras. Também não é para menos, ele já fazia vários caminhãozinhos aos 11 anos. O pai de Décio tinha uma padaria na década de 1920 e adorava ensinar o filho a arte de entalhar e esculpir. “Meu pai é espanhol, veio de Almeria, em um navio da marinha. Ele era o cozinheiro do navio e quando chegou à Argentina saiu do navio, e disse: vou fazer uma aventura em terra e pouco tempo depois, chegou no Brasil. Acabou ficando na região das Ruas Caetano Pinto e Carneiro Leão. Como ele tinha aquele dom de cozinhar, montou uma padaria em 1921 São Caetano do Sul, que era um barracão. Ela ficava na Rua São Paulo, 1523, no Bairro Santo Antônio, que naquela época era chamado Bairro Monte Alegre. A especialidade da padaria eram as bolachinhas espanholas chamadas mantecais. Vinha gente de São Paulo buscá-las. Embora o prédio tenha tido algumas modificações, o prédio continua lá. Paralelamente a isso, meu pai fazia escultorinhas em madeira, e nesses caminhõezinhos ele colocava pães doces. A diversão dele era essa. Para ajuda-lo eu cortava o paralaminha, o pneu, e então eu aprendi. Eu tinha 11 para 12 anos e também já fazia móveis. Eu fazia os carrinhos de rolimã. Eu já trabalhava na padaria, fazia pão com 15 anos e tomava conta dos padeiros à noite. Em menino, eu entreguei muito pão e leite. A gente ia entregar o pão, às vezes recebia o dinheiro trocado, quando não vinha o dinheiro trocado, a gente marcava no batente da porta da pessoa, para perceber a honestidade das pessoas.”, lembra.

Décio e a família moravam no fundo da padaria e lá ficou até se casar em 1974. Ele se lembra até hoje de como era diferente a vida e o Bairro. “Nosso vizinho tinha até cavalos que quando fugiam eu costumava montá-los”.

A maioria das ruas não tinha paralelepípedo, mas a Avenida Goiás tinha, mas no centro, porque nas beiradas, era terra. Eu levava muito pão lá, onde era a Prefeitura. Na esquina tinha uma mercearia e a menina se chamava Micaela. Ali a gente entregava porque eles serviam os clientes. Entregava leite de charrete domingo na Praça Cardeal Arco Verde na Rua João Pessoa, Rua. Baraldi para aquelas pessoas que eram clientes do meu pai. Era muito gostoso. Aqui na Rua São Paulo, nós ouvíamos os sinos da Matriz tocarem. Nós falávamos, olha vai começar a missa. Depois tocava as seis, sete e as oito. Nós sabíamos quando o trem chegava. Tudo tinha horário, o trem saia quando o ônibus chegava. O ônibus não vinha até a Vila Gerti, Palmares e Santo André. Ele vinha até o Joanin, era tudo terra e mato. De lá para cá era terra. Eu nasci na Vila Gerti e tinha muitas histórias de assombrações. No estádio era um mato só e tinha muita assombração”, relembra.

            Muitas das histórias assombradas que Décio ouvia vinham da localização da Vila Gerti, que ficava no alto da cidade e por isso quando ventava, fazia barulho. Esse fato deu origem a um nome popular do local: o Morro dos Ventos Uivantes. O artesão conta que: “Ainda hoje quando dá ventania, se ouvem os fios da Eletropaulo assobiar. Naquela época por conta da terraplanagem, aquele vento fazia a poeira ficar em formato de redemoinho e a criançada acreditava que era o Saci Pererê. Precisava pegar uma peneira para pegá-lo. Eu vinha ao estádio para ver se eu via o saci, mas não vimos nada, só aquele redemoinho e poeira”, lembra.

            Outra história que marcou a infância de Caparroz aconteceu quando tinha 10 anos e era a época da Guerra. “Passava tudo na minha rua, os aviões, tanques de guerra, cavalaria. Nessa época eu comecei e me entender como gente. Passavam arrastando os pés, ronco que doía o coração, eles armados, era guerra lá, mas os brasileiros que estavam para partir precisavam treinar aqui”, explica.

Mais tarde, já na adolescência, o artista começou a viajar pelo Brasil. Décio conta que viajava muito de trem, e que para conhecer o funcionamento desse meio de transporte chegou a viajar junto com o maquinista. Ele coordenava as suas viagens com o trabalho na padaria do pai.

Em 1976, Caparroz conseguiu um emprego na General Motors e largou a padaria. “Trabalhei em várias outras indústrias e me aposentei aos 64 anos, por tempo de serviço. Na época em que estava nas empresas sempre fazia os carrinhos de madeira e dava aos meus amigos. Todo mundo queria e eu fazia tudo a mão”, relembra.

Vida de artista

            Atualmente a rotina de Décio é dedicada exclusivamente aos entalhes e confecções de objetos em madeira. Ele e a esposa Laíde Irene Sasso, 69 anos trabalham juntos. Décio fabrica os objetos e Laíde faz as pinturas.

 Quando a pessoa encomenda a peça, o artesão define ao cliente o que pode ser feito na madeira. “Procuro tirar da cabeça das pessoas o que ele quer. Eu faço o que você me pedir, mesmo que eu leve cinco dias, se eu não tenho o desenho na hora eu vou procurar. O meu carro chefe é o entalhe, eu aprendi vendo. Primeiro precisa fazer o desenho no lápis e depois com as ferramentas eu vou cortando. Já peguei até brasão de família e serviço em Nova Iorque para uma academia de tatuagem. O entalhe eu faço há uns 10 a 12 anos. As pessoas apareciam pedindo uma entrada de chácara. O entalhe me atraiu pela procura, como é um trabalho muito rico, eu comecei a fazer e colocar frases de efeito, coisa que a família gosta. Muitas vezes a pessoa pede as placas com o nome de alguém da família. Então eu procuro fazer o que posso. No entalhe eu não tenho dificuldade, já fiz de tudo”, conta.
Para entalhar, Décio usa as ferramentas de marcenaria, como as goivas, formões, os ferros a cantos, entre outros. O processo é simples, mas requer prática e cuidado. Primeiro o artesão faz o desenho e depois começo cavar a madeira sobre o risco. Existem alguns detalhes importantes no desbaste da madeira. Décio explica: “A árvore cresce para cima, e suas fibras estão de cima para baixo ou ao contrário, você tem que ir a favor do seu veio. O tempo de confecção de um trabalho depende de quanto tempo eu fico nele. Em geral eu fico uma hora por dia, por causa das costas. Não compensa ficar a tarde toda, é um trabalho braçal. Eu gosto de buscar pão, ir à quitanda, se eu ficar direto eu não tenho energia para fazer outras coisas”, exemplifica.

Em relação à escolha das madeiras, Décio é cuidadoso e costuma ir às madeireiras para comprar o material, em especial o cedro.

Outro trabalho que o artesão costuma fazer é a marchetaria, que embora seja mais leve é trabalhoso. Essa técnica usa as folhas de madeiras. É necessário de duas ou três cores de folhas para dar o efeito. A inspiração vem da cabeça. “Eu vou colando a fita crepe atrás das folhas de madeira como se montasse um quebra-cabeça. Vou encaixando, é a coisa mais simples do mundo, mas é preciso ter uma medida”, conta.

Para facilitar o trabalho e dar conta das encomendas, Caparroz criou uma estrutura para a sua produção. Tira um dia inteiro para cortar todas as madeiras ou folhas de madeiras. Em outro dia faz a montagens e, por fim, as pinturas. Peças como os oratórios de madeira que têm boas venda, ele consegue fazer em dois a três dias. “Tem temporada que é mais devagar, de janeiro a julho, é fraco, mas no final de ano, é uma época boa. Começam as aulas, fica fraco o trabalho. De junho para frente, eu começo a vender. Levo as obras para a galeria que fica abaixo da Estação de trem e ali, pego encomenda todos os dias. Trabalhei muitos anos na Praça da República e adorei, lá é muito bom. Tem gente que chegava lá e comprava até 10 trabalhos. É muito bom, você conhece todo mundo. Eu fiz um tabuleiro grande de xadrez e coloquei lá. As pessoas vinham e perguntavam se podiam mexer e acabei ficando muito famoso assim”, explica.

Os números das produções de Décio ultrapassam a timidez, ele já fez mais de 2500 casinhas.
Além delas, ganham destaque os jogos de xadrez em madeira, que ganharam um toque personalizado nas mãos de Décio. Ele leva de 8 a 9 dias para confecciona-los. “As peças são praticamente todas redondas e no torno é rápido fazê-las”, finaliza.


*É jornalista, pesquisadora, historiadora. Formada em jornalismo pela Universidade Metodista, com formação em ciências sociais pela USP e Direito pelo Mackenzie, tem especialização em Fundamentos e Artes pelo Instituto de Artes da UNESP de São Paulo e Mestre em história pela PUC de São Paulo. É autora do livro Abre as portas para os Santos Reis da Editora Fundação Pró-Memória, Animais nas Batalhas pela editora Matrix e Os benzedores que benzem com as mãos da editora UCG.




 (ESSE TEXTO NÃO PODE SER COPIADO SEM OS DEVIDOS CRÉDITOS DE AUTORIA, CONFORME A LEGISLAÇÃO DE DIREITOS AUTORAIS LEI 9610, de 19 de fevereiro de 1998, "Dos Direitos Morais do Autor", Artigo 24, Inciso II. POR FAVOR, NÃO COPIEM, COMPARTILHEM O LINK. OBRIGADA)            

quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

Poucos trens e o primeiro jornal
Por: Priscila Gorzoni




Na virada dos anos 20 e 30, a população de São Caetano do Sul, usava trem e os poucos ônibus da época.
Nesse período a cidade ganhou o seu primeiro jornal São Caetano Jornal, cujo principal artigo foi sobre a estação ferroviária, que se tornou a maior referência. O dono do jornal era Raimundo Cyriaco de Carvalho.
O primeiro número do jornal circulou no domingo, 15 de janeiro de 1928 e a redação ficava na rua. Rio Grande do Sul, 7.

Imagem: Fundação Pró-Memória de São Caetano do Sul.

Fonte:

























(ESSE TEXTO NÃO PODE SER COPIADO SEM OS DEVIDOS CRÉDITOS DE AUTORIA, CONFORME A LEGISLAÇÃO DE DIREITOS AUTORAIS LEI 9610, de 19 de fevereiro de 1998, "Dos Direitos Morais do Autor", Artigo 24, Inciso II. POR FAVOR, NÃO COPIEM, COMPARTILHEM O LINK. OBRIGADA)  

quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

Os personagens de São Caetano do Sul
As histórias do taxista Adalmir Silva, 72 anos
Por: Priscila Gorzoni


                                 Foto/crédito: Priscila Gorzoni


De São Caetano do Sul à Tabatinga no Amazonas

Quando penso no taxista mais aventureiro que conheci durante essa série de entrevistas com os taxistas de São Caetano do Sul lembro-me imediatamente de Adalmir Silva, 72 anos, taxista há mais de 40 anos do Ponto do bairro Vila Gerti.

Adalmir nasceu em uma cidade do interior de São Paula chamada Jaborandi e veio para São Caetano do Sul em 1968. Assim que chegou aqui com a família morou no bairro Olímpico, que na época era conhecido como Morro dos Ventos Uivantes, e de lá nunca mais saiu.

A profissão de taxista apareceu em sua vida por acaso. Ele era o motorista do dono da Padaria Nova Iorque, que fica na Rua. Paraíso e em frente havia um Ponto de Táxi, mas Adalmir não tinha condições de comprar o ponto por isso oferecia os seus serviços como prestador de serviço. Por meio desse trabalho surgiu a oportunidade de prestar serviços como motorista para a General Motors (GM) e foi lá que ele fez uma das maiores viagens de sua vida. “Fui de São Caetano do Sul até Tabatinga no Amazonas e ganhei muito dinheiro. Nessa viagem levei 75 dias, usei carro, avião e barco. O trabalho foi pago por uma empresa de Brasília e o Ministério dos Transportes em Brasília. Você imagina onde é Tabatinga no Amazonas? Olha de Manaus até lá são 17 dias de barco, é divisa do Brasil à Colômbia a Peru. Eu fui viajando por rodovias e fluvial. Fui passando pelos rios, mas foi uma viagem gostosa, eu vi muitos índios, bichos, jacarés, macacos, uma beleza, passei na mansão da miss Brasil, Martha Rocha”, narra.

Realmente eu não imagino, mas durante a entrevista que fiz com o Adalmir acabei o conhecendo bem e me encantando pela trajetória desse taxista aventureiro. “Sair para o mundo é muito bom, conheço o Brasil inteiro. Conheço tudo e me dou bem com todos. Sou comunicativo, se posso ajudar ajudo se não, não ajudo”, conta.

Mais do que qualquer uma de suas aventuras nesses 40 anos de táxi, o motorista considera como a sua vivência mais relevante à viagem realizada até Tabatinga e sem dúvida alguma ele tem toda a razão. 


Uma aventura no meio da mata


Adalmir tinha 30 anos quando fez essa viagem e conta que andou de navio até Belém, e levou 16 dias até chegar, onde fica o Primeiro Bis (Batalhão da Infantaria e Selva) em Manaus. A sua função era pegar o carro da ambulância do Estado e transportá-lo em segurança até o quartel do exército de Tabatinga. “Passei primeiro pelo Primeiro Bis e depois segui para o Primeiro Batalhão de Tabatinga, Peru, Colômbia e fiquei na cidade de Letícia, que faz fronteira com o Brasil. As ruas são frutíferas, mas não pode jogar pedra para derrubar a fruta no chão, se acontecer isso a pessoa é multada, paga a multa. Fiz muita amizade e me diverti”, relata.

Dessa viagem o que não faltam são as lembranças e algumas marcaram mais o taxista, entre elas ver os bichos, as plantas exóticas e os habitantes da região. “Peguei a planta Vitória Régia na mão, nadei no Rio Madeira, Solimões, comi alimentos exóticos. Tenho muita vontade de voltar lá”, conta.

Algumas aventuras perigosas hoje tiram risadas do motorista, entre elas uma ocorreu quando ele estava indo para Porto Velho. “Lá tem muito jagunço, pessoas escravizadas. Dei carona para algumas pessoas no caminhão, mas não sabia quem eram. De repente os pistoleiros começaram a correr atrás do meu caminhão para pegá-los e eu precisei correr muito. Precisei correr e jogá-los para fora senão iam matar todos. Pistoleiro existe. Recolhi o pessoal e eles voltaram para a fazenda. Lá existe escravidão e isso me marcou”, relembra.

Outra situação no mínimo exótica que o marcou aconteceu em uma cidade chamara que Tocantinópolis, no caminho de quem vai para Marabá. “Sem querer atropelamos uma Ema, elas estavam em quatro, eram grandes e por sorte não matou nenhuma. Uma delas caiu então pegamos, deitamo-la, passamos barro nas pernas, colocamos taboca na perna dela e a soltamos, ela ficou com uma bota. Ela saiu correndo e sumiu na mata. Depois demos de encontro com um enxame de abelhas, acendemos o farol, fechamos todos os vidros e passamos de carro no meio do enxame. Se uma delas entrasse no carro nos matava”, relata.


A compra do Ponto de Táxi


A viagem a Tabatinga no Amazonas rendeu tanto dinheiro que com ele Aldemir conseguiu comprar o Ponto de Táxi e o carro em 1974 e nunca mais largou o serviço de taxista. “Consigo manter a minha família tranquilamente com as 7 a 12 viagens que faço por dia”, conta.

No táxi Aldemir escuta muitas histórias, conversa e costuma dizer que o carro se torna um confessionário. “A gente ouve muita coisa, mas não pode dizer, e é gostoso ouvir essas conversas. Tem gente que quer se soltar e se expandir. Elas se abrem, é muito bom e a pessoa que trabalha com isso não envelhece. O ideal no táxi é manter o respeito, a educação e tratar bem a pessoa. O táxi tem o taxímetro e se ele marca aquilo, é aquilo. O valor que cobramos é o justo e honesto”, relata.

Sobre os medos, o taxista diz não ter até porque já foi assaltado várias vezes, inclusive em um deles levou um tiro. “Fui ajudar uma mulher grávida no Heliópolis, que já é São Paulo, e quando avisei que o preço era outro, o sujeito que estava com ela retirou o revólver e me deu um tiro na perna e eu nem cheguei a ver a mulher, mas faz parte, trabalhar é isso. Já vivi muitas aventuras e adoro, não pode ter medo das coisas. Para se dar bem na vida tem que se centrar, se você não trabalha não arruma nada na vida”, finaliza.  

Texto publicado na revista Raízes 54.


*É jornalista, pesquisadora, historiadora. Formada em jornalismo pela Universidade Metodista, com formação em ciências sociais pela USP e Direito pelo Mackenzie, tem especialização em Fundamentos e Artes pelo Instituto de Artes da UNESP de São Paulo e Mestre em história pela PUC de São Paulo. É autora de 11 livros, entre eles Abre as portas para os Santos Reis da Editora Fundação Pró-Memória, Animais nas Batalhas pela editora Matrix e Os benzedores que benzem com as mãos da editora UCG.

 

 (ESSE TEXTO NÃO PODE SER COPIADO SEM OS DEVIDOS CRÉDITOS DE AUTORIA, CONFORME A LEGISLAÇÃO DE DIREITOS AUTORAIS LEI 9610, de 19 de fevereiro de 1998, "Dos Direitos Morais do Autor", Artigo 24, Inciso II. POR FAVOR, NÃO COPIEM, COMPARTILHEM O LINK. OBRIGADA)       
Lugares curiosos
O Túmulo da menina Neves
Por: Priscila Gorzoni



                                                    Foto/crédito: Priscila Gorzoni  
Em todos os cantos do mundo existem lugares inusitados. Locais que destoam do tempo, guardam segredos, mistérios ou que parecem esquecidos de uma época. As metrópoles escondem esses locais, que muitas vezes passam despercebidos em nossa vida acelerada. Esses locais podem ser chamados de lugares de memória[i], que são antes de tudo, restos. Eles nascem e vivem do sentimento  de que não há memória espontânea, que é preciso criar arquivos, manter aniversários, organizar celebrações, entre outros acontecimentos. Também podemos chamar esses locais de ilhas de passado conservadas[ii]
Conhecer um pouco destes locais é entrar nos lugares da memória ou nas ilhas de passado conservadas. É uma experiência fundamental para compreender a história e a memória da cidade e dos moradores que viveram ali.
Em São Paulo encontramos vários destes pontos como, por exemplo, o Cemitério da Consolação. Como escreveria o sociólogo José de Souza Martins, em História da arte no cemitério da Consolação: “O cemitério da Consolação é um espelho em que os vivos se refletem e se encontram na memória dos mortos. Ali, no silêncio definitivo, podem os mortos ser interrogados e compreendidos no seu legado a este país e a São Paulo, estado e cidade”.
Estendo essa análise aos demais cemitérios, entre eles, o Cemitério da Saudade, no Bairro da Cerâmica, que foi criado no dia 3 de outubro de 1932. Esse foi o segundo cemitério criado em São Caetano do Sul e é também o maior. Não é um cemitério apenas de túmulos, mas de gavetas, gavetões e jazigos. Em dia de movimento, esse cemitério pode até receber 30 mil visitantes!
Nas décadas de 1930, era comum no Bairro São José, ser avistadas procissões de caixões. Os familiares e parentes dos mortos andavam quilômetros a pé carregando o o esquife com o falecido. Em alguns momentos paravam deixavam o caixão no chão e tomavam água no bar. Depois, retomavam a via sacra, carregando o caixão que se destinava ao cemitério.
Alguns pormenores são dignos de nota no Cemitério da Saudade, um deles é o Túmulo da menina Neves, um dos mais visitados. Chegam pessoas de várias partes de São Paulo, em busca de graças e milagres para suas aflições. Por isso esse túmulo  despertou-me maior interesse. Estive neste cemitério fotografando e coletando histórias. Algumas vezes encontrei pessoas notórias e variadas, de visita à Capela da Família Ribeiro. Ela fica bem próxima da Capela do Cemitério e está sempre limpa e com flores frescas, sempre bonita.
            Para os que não sabem, o cemitério da Saudade surgiu da desapropriação do Ato 17, de 9 de julho de 1931, assinado pelo Prefeito-intenventor, Armando Setti. Era uma área de 20 metros quadrados, dentro do imóvel “Meninos e Meninos Novo”, na época situada no Bairro da Cerâmica, que, hoje, faz parte do Bairro São José.
O primeiro nome dado ao Cemitério da Saudade foi Necrópole da Saudade,i dado ao Cemitério no dia 3 de outubro de 1932, por meio do Ato 38, do mesmo Prefeito Armando Setti, de São Bernardo.
            O Bairro São José é cercado de religiosidade e histórias. Uma delas é a da Menina Neves Nascimento Ribeiro, que morreu aos 11 anos de idade de tétano. Sua mãe, Rosalina do Nascimento Ribeiro ficou desesperada. Em menos de um mês, depois, Rosalina reencontrou a filha em uma sessão espírita, dizendo que estava feliz ao lado de Nossa Senhora. Era então ano de 1948. Neste encontro Rosalina contou que a filha pediu para a mãe construir uma capela para ela e relatou que estava fazendo milagres com Nossa Senhora. Sua fama ultrapassou fronteiras e, até hoje, a Capela é muito visitada. Pois, de acordo com os moradores vizinhos, milagres passaram a acontecer dias depois.
            Em 1948, os pais da garota Neves doaram um terreno de 18 m por 30 metros, para a construção da Igreja do Bairro. O pai da menina Neves, Adelino Ribeiro, morreu em 1951, ano em que as paredes da igreja prometida à filha estavam sendo erguidas. Sem a presença de Adelino, Rosalina deu continuidade ao empreendimento e recebeu a ajuda de toda a coletividade, que em sistema de mutirão ajudou a levantar a Paróquia Sagrado Coração de Jesus que fica na Rua Padre Mororó, no Bairro São José.

Box: Os cemitérios
Desde o final do século XVIII, mantinha-se o costume de enterrar corpos no interior das igrejas, pois esse era considerado um solo sagrado. Mas, tal costume já era criticado pelos higienistas. Eles diziam que esse hábito era perigoso à saúde. A presença constante de epidemias na cidade era o resultado da contínua manipulação dos restos mortais no interior das igrejas. Essa ação produzia mau cheiro e doenças microbacterianas.
Nem sempre os cemitérios eram espaços distantes ou destinados aos subúrbios das cidades. Na Europa do ano 1000 ao século XVIII, a proximidade do espaço dos vivos e o dos mortos era um traço importante da história das mentalidades e das sociedades tradicionais. Segundo Jean-Claude Schmitt em Os vivos e os mortos na sociedade medieval, no fim do Antigo Regime, os cemitérios das cidades foram esvaziados de suas ossadas e exilados para os subúrbios. Antes era costume ter os vivos em torno dos mortos. Nas aldeias europeias, no centro ficava a igreja paroquial, depois apertadas ao redor dela, as sepulturas do cemitério. Schmitt explica que entre o a igreja e a aldeia, o cemitério é, portanto, um lugar intermediário e desempenha um papel mediador.


[1] Termo definido por Pierre Nora no texto Entre memória e história: a problemática dos lugares.
[1] Termo citado por Maurice Halbwachs em A Memória Coletiva.

Referências Bibliográficas
MEDICI, Ademir. Migração e urbanização: a presença de São Caetano na região do ABC, Editora Hucitec, São Caetano do Sul, 1993.
NOVAES, Manoel Cláudio. Nostalgia, Editora Meca, São Paulo, 1991.
RUSSO, Alexandre Toler. Caminhos da fé: itinerário dos templos religiosos de São Caetano do Sul, editora Fundação Pró-Memória de São Caetano do Sul, São Caetano do Sul, 2004.
SCHMITT, Jean-Claude. Os vivos e os mortos na sociedade medieval, editora Companhia das Letras, São Paulo, 1999.

*É jornalista, pesquisadora, historiadora. Formada em jornalismo pela Universidade Metodista, com formação em ciências sociais pela USP e Direito pelo Mackenzie, tem especialização em Fundamentos e Artes pelo Instituto de Artes da UNESP de São Paulo e Mestre em história pela PUC de São Paulo. É autora de 11 livros, entre eles Abre as portas para os Santos Reis da Editora Fundação Pró-Memória, Animais nas Batalhas pela editora Matrix e Os benzedores que benzem com as mãos da editora UCG. 

Texto publicado na Revista Raízes 54







terça-feira, 3 de janeiro de 2017

Personagens ilustres de São Caetano do Sul
As histórias de José Carlos de Souza, o GCM Souza, 63 anos e há 27 trabalhando na Guarda.
Por: Priscila Gorzoni

                               Foto/crédito: Priscila Gorzoni



O GCM Souza, José Carlos de Souza, 63 anos e há 27 trabalhando na Guarda Civil Municipal (GCM) nasceu em São Bernardo do Campo e seus pais, José de Souza Lima e Evarista Nunes de Souza vieram de Juazeiro da Bahia em 1951. 
Os pais de Souza escolheram a região com o objetivo de encontrar opções de emprego. Por destino ou sorte José e Evarista se conheceram em São Bernardo do Campo. “Assim que meu pai chegou à cidade conheceu a minha mãe, eles tinham 21 anos. O meu pai trabalhava no garimpo na Bahia e quando chegou passou por várias funções de pedreiro a jardineiro. Já a minha mãe trabalhava em fábricas. Passados três anos eu nasci, sou o mais velho e o meu irmão que é mais novo se chama Carlos Roberto de Oliveira. Ele nasceu quando os meus pais ainda não estavam casados e então teve problemas para ser registrado. A vida inteira me preocupei em trabalhar, sempre caseiro e estudando para melhorar. Atualmente os meus pais tem 87 anos e moram em Juazeiro, todos os finais do ano os visito”, relata.

            Da infância Souza só se recorda de sempre ter trabalhado muito para ajudar os pais e estudado pouco. “Estudei até a quarta série e costumava pedir dinheiro nos faróis”, conta.

            Souza é casado há 33 anos com Valdete de Souza Lima, 53 anos com quem teve duas filhas, uma com 34 e a outra com 27 anos. “Conheci a minha esposa em São Caetano do Sul e ela era uma prima. Nossa família é toda daqui, do bairro cerâmica”, conta.

Profissionalmente antes de se tornar GCM Souza passou por várias empresas. “Com 19 anos comecei a trabalhar em fábricas, passei por várias delas como: Máquinas Piratininga, Armazéns Columbia, Brasinca entre outras. Um dos trabalhos que mais me marcou foi o de carregar os vagões de trens com algodões. Em 1979 sai das empresas e passei em um bar onde o dono era um amigo, que me perguntou se eu estava desempregado. Eu disse que estava e ele me indicou o tenente Novaes da Guarda da prefeitura para arrumar um emprego. Preenchi algumas fichas, recebi algumas instruções, a farda e um revólver e fui trabalhar de guarda de rua. Os guardas mais antigos orientavam os mais novos, sempre foi assim”, relata.

            O trabalho de guarda de rua não era fácil e Souza ficou em vários pontos da cidade, entre eles a rodoviária, o museu municipal, o Parque Chico Mendes, o Paço Municipal, entre outros. Nesse tempo ele recebeu uma proposta muito boa e foi trabalhar como segurança privado no Jardim São Caetano. Depois de um tempo, em 1987 voltou para a guarda municipal e lá permaneceu até os dias atuais.

Souza é um dos GCMs mais antigos e fez 28 anos de profissão esse ano (2016). “Pretendo ficar até quando aguentar, pois gosto de lidar com o público. Já passei por muitas dificuldades e sempre fui muito responsável pelos meus atos, nunca atirei em alguém. Você tem que ter equilíbrio. Antes de sairmos para as ruas fazemos um curso de 3 a 4 meses, recebemos instruções e a cada dois anos temos um treino de como usar a arma e as leis municipais. Nós temos que saber tudo, desde defesa pessoal até as coisas mais básicas”, explica.



* É jornalista, pesquisadora, historiadora. Formada em jornalismo pela Universidade Metodista, com formação em ciências sociais pela USP e Direito pelo Mackenzie, tem especialização em Fundamentos e Artes pelo Instituto de Artes da UNESP de São Paulo e Mestre em história pela PUC de São Paulo. É autora de 11 livros, entre eles Abre as portas para os Santos Reis da Editora Fundação Pró-Memória, Animais nas Batalhas pela editora Matrix e Os benzedores que benzem com as mãos da editora UCG.



 (ESSE TEXTO NÃO PODE SER COPIADO SEM OS DEVIDOS CRÉDITOS DE AUTORIA, CONFORME A LEGISLAÇÃO DE DIREITOS AUTORAIS LEI 9610, de 19 de fevereiro de 1998, "Dos Direitos Morais do Autor", Artigo 24, Inciso II. POR FAVOR, NÃO COPIEM, COMPARTILHEM O LINK. OBRIGADA)            



              










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