sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

Costumes de São Caetano do Sul

As sortes das pessankê (Ovos da Páscoa Ucraniana) 
Por: Priscila Gorzoni


                      Foto/Priscila Gorzoni

Alguns dias antes da Páscoa, Douglas Anderson Martinez, 52 anos, que é brasileiro, filho de ucranianos, (ele se considera ucraniano de coração), começa a elaborar as pessankê ou Pysanka (ovos pintados ou desenhados). O artista desenha esses ovos às vésperas da Páscoa ucraniana que, em cada ano cai em um dia. Às vezes a data coincide com a Páscoa católica, outras, caem em dias diferentes. “Começo a prepará-los ainda na quaresma e, chego a concluir cem ovos nesse período inteiro, cerca de dez por dia. Tudo depende do tempo que tenho. Depois de prontos, eu os vendo (alguns) e faço doação de outros, para um amigo que não esteja bem saúde. Cada ovo tem seu  símbolo e um objetivo. Para as meninas solteiras costuma-se dar uma pessankê com o desenho de um rastelo, para desejar bom casamento. As pessankê de madeira servem como um talismã e significam votos de boa sorte”, exemplifica Douglas.

Ele foi estimulado a esse artesanato pela esposa, Marú Martinez, 49 anos, que é da segunda geração de ucranianos, e nasceu em São Caetano do Sul. Douglas sempre se interessou pela cultura ucraniana e pesquisou as tradições por sua própria conta. Marú conta que ele conhece mais a história e os costumes ucranianos do que muitos descendentes de ucranianos. “Eu faço parte da sociedade há mais de 30 anos, sou o tesoureiro há mais de 20, e a cada dois anos vamos as reuniões no Paraná. Eu aprendi o idioma ucraniano e quando vou as reuniões ninguém percebe que não sou ucraniano”, relata Douglas.



Dentro da cultura ucraniana, a maior paixão de Douglas é a preparação dos pessankê, palavra que se origina do verbo pysaty, que significa escrever. Pêssanka são ovos pintados a mão e sua origem é eslava. Eles simbolizam a vida, a saúde e a prosperidade.

Os ovos artísticos ucranianos recebem esse nome porque não são pintados, mas escritos com simbolismos. Essa arte tradicional dos ucranianos vem de alguns milhares de anos, quando eles eram preparados para presentear as divindades no inicio da primavera, época da colheita. Com a chegada do Cristianismo, esses ovos passaram a simbolizar a Páscoa, isto é, a Ressurreição de Cristo, pois páscoa, quer dizer passagem de Cristo, da morte para a vida”.


                                 Foto/Priscila Gorzoni


Durante a história, no regime comunista, as pessankê sofreram perseguições, culminando com a proibição desse artesanato nos países comunistas. Atualmente, elas são produzidas no mundo inteiro pelos descendentes de ucranianos. Essa arte ganhou ainda maior força após a independência da Ucrânia em 1991. 

                             Foto/Priscila Gorzoni


Dá trabalho preparar as pessankê. Essa é uma arte muito delicada e exige bastante paciência. Cada ovo de galinha, cru, é cuidadosamente desenhado a lápis. Incialmente, tira-se todo o seu conteúdo e, só depois, inicia-se a elaboração da pintura. Em seguida, passa-se a cera de abelha, nas partes em que se deseja que fique branco. A cera protege e não deixa a tinta penetrar. Com a experiência, o artista aprendeu alguns segredos, tais como, por exemplo, iniciar usando as cores mais claras, para depois utilizar as escuras, que vão se sobrepondo. O pessankê é considerado um amuleto da sorte, por isso, é costume dos ucranianos se presentearem com eles. “Os desenhos têm como base os símbolos, usa-se uma simbologia tradicional. Cada um dos motivos significa alguma coisa. Em relação às tintas, elas são compradas por algum padre ucraniano que vá aos Estados Unidos. Mas, antigamente, elas eram feitas de modo artesanal, com a casca de cebola, o vermelho, com a beterraba, ervas para o verde. As tintas atuais são um pó misturado à água fervida e uma colher de vinagre branco”, ensina o artesão. 

                    Foto/Priscila Gorzoni


Com a prática, Douglas diz elaborar os pessankê  “de olhos fechados”. Sua maior preocupação é manter proporções. “Eu sempre gostei disto. Nas reuniões da Sociedade Ucraniana, estudamos um modo de uniformizar esse artesanato, uma espécie de unificação. Certo dia, eu já tinha 20 anos, interessei-me por essa arte popular. Aprendi a fazê-los com a madrinha da Marú. Ela se chamava Eugênia. A mãe de Eugênia, em 1923, trouxe essa tradição ucraniana. Ela pintava e eu acompanhava tudo muito atento para aprender. Ela trabalhava nessa tradição, nas antevésperas da Páscoa Ucraniana. Seu objetivo era preparar as pessankê para dar e vender. Em São Paulo, só havia ela para fazer os ovos desenhados.

É uma pena, mas essa tradição está acabando. Ate 1967 a 1969, existiam ainda muitos ucranianos por aqui. Hoje, temos uns seiscentos ucranianos, mas que participam das atividades tradicionais ucranianas, são apenas uma centena. Em geral, os velhos participam mais, os jovens não querem saber disso. Não temos mais jovens procurando aprender a fazer as pessakê. Todo os anos, nós reunimos voluntários ucranianos para ensinar os jovens, mas aparecem uns três ou quatro e não mostram entusiasmo para dar continuidade. Assim,  uma hora essa tradição vai acabar”, conta, penalizado, Douglas.

Ao mesmo tempo que Douglas narra suas experiências, vai elaborando um exemplar de pessankê,  pois estamos a alguns dias da Páscoa ucraniana. Delicadamente, ele risca o desenho a lápis no ovo de galinha. E, já com a cera de abelha, mergulha-o na tinta preta, depois, leva-o debaixo da água corrente e o enxuga, cuidadosamente, com um guardanapo. Ele explica que é necessário passar vinagre no ovo para a tinta fixar-se melhor, pois a gordura das mãos pode manchar a pintura do ovo. Outros segredos tradicionais também são importantes, entre eles, o de que, algumas cores, como o marrom, e suas tonalidades, têm sua origem e uso pelos povos das montanhas da Ucrânia. 

                    Foto/Priscila Gorzoni


Uma parte muito delicada e até assustadora, o ato do artista passar o ovo,bem de leve, no fogo, sempre virando-o de lado para não queimá-lo. Ele explica:

“É preciso tomar bastante cuidado porque o aquecimento excessivo, pode estourar o ovo. As cores às vezes, saem errado, pois a cor depende também da casca do ovo, ela pode interferir na cor. Tudo influencia o artesanato geral do ovo, desde a casaca do ovo, aos toques do artista. O ovo pode estourar sozinho também, os velhos diziam que se alguma coisa for acontecer ele a chama e manda essa coisa embora.... Por isso, o ovo funciona como um talismã. As pessoas costumam exibi-lo na sala de visitas, onde quiserem. Não se deve cozinhar o ovo, o máximo que você pode fazer é um furinho e retirar a gema, mas o ideal é fazer a pintura com ele integralmente cru”, explica Douglas. Aos poucos, as imagens vão aparecendo, e o resultado é sempre uma surpresa. Para finalizar, no trabalho feito, passa-se um verniz normal, mas antes é necessário deixar o ovo descansar por algumas horas.

Para Douglas o ovo tradicional usado para fazer a pessankê é o ovo de galinha. Mas, na Ucrânia, eles também usam o ovo de madeira. “O que inovamos foi fazer a pessanka em ovos de porcelana e parafina. Esses não são da tradição. Mas, por outro lado, trazemos os simbolismos e motivos tradicionais. O pessankê mais comum é o feito em porcelana. O de madeira é pintado com pincel, é diferente, você já vai vendo o resultado, já com o ovo de galinha, o resultado é uma surpresa. Só na hora de passar no preto, que é a última cor, é que você vê o resultado. A outra diferença é que o de madeira é mais demorado”, relata.



Lembranças da infância

Assim como aprender a língua ucraniana, elaborar as pessankê é uma das atividades da infância dos descendentes de ucranianos. “Víamos os nossos pais fazerem esses ovos, praticar as danças típicas nas igrejas ucranianas e na Sociedade ucraniana, que fica no Bairro da Fundação. Todas as tradições giraram sempre em torno da Sociedade Ucraniana e da igreja.

“Em São Caetano do Sul a imigração ucraniana chegou em 1926, com a vinda do pessoal que fugia das ameaças da Segunda Guerra Mundial. São Caetano já tinha uma turma e, na época, a cidade já era um pouco populosa”, conta Marú. Antes de terem uma igreja ucraniana, as missas eram celebradas em ucraniano na Matriz Velha.

Na época em que Douglas começou frequentar a Sociedade Ucraniana, todos falavam o idioma ucraniano. Vinham ucranianos de várias regiões, todos os dias, para ensinar a falar e a escrever o alfabeto. “Da Ucrânia chegavam revistas. Eles procuravam ajudar a comunidade. A segunda geração da guerra já era estudada, vinham para cá engenheiros, médicos, advogados. Inclusive a nossa igreja ucraniana foi feita por engenheiros ucranianos. A maior dificuldade desses ucranianos era com o idioma, para comprar as coisas era necessário se comunicar por mímica. Só após as décadas de 1970, os velhos ucranianos começaram a abrir espaço para os novos, porque era tudo em ucraniano. Por outro lado, eles não tiveram dificuldades com a comida, pois gostavam de batata, trigo, pão e embutidos”, finaliza Douglas.

                             Foto/Priscila Gorzoni



BOX

A chegada dos ucranianos



Os ucranianos começaram a chegar ao Brasil em 1891. Entre os anos de 1922 e 1930, vários deles, vítimas da guerra contra os comunistas, foram assentados em São Paulo, sendo que muitos escolheram São Caetano do Sul para viver. Nessa época foi criada a Sociedade União Popular Ucraniana, que passou por várias mudanças de nome.  Entre 1946 e 1949, chegou ao país a última leva de 1,500 famílias ucranianas vindas dos campos de deslocados da Guerra. Aqui eles se uniram aos membros da colônia e formaram a Sociedade Ucraniana Unificação. A mudança do estatuto da entidade aconteceu em 1977 e com isso, passaram a aceitar os brasileiros filhos de ucranianos.



BOX

O ritual da Páscoa ucraniana

A celebração da Páscoa ucraniana se inicia no domingo que marca o final da quaresma, isto é, o Domingo de Ramos que se inicia com o jejum. Na quinta-feira Santa, pela manhã é celebrada a missa, na qual são consagrados: “Tchastytsi” Santos Dons, que serão utilizados durante o ano para comungar pessoas enfermas; “Antiminsos” pequenos panos de linho que trazem no verso relíquias de Santos, sem os quais não se podem celebrar missas; “Myro”, o óleo utilizado para o Sacramento do Crisma. Ao final da tarde celebra-se o oficio das Matinas da Sexta-feira Santa com a leitura dos doze Evangelhos sobre o sofrimento de Jesus Cristo, no qual os fiéis seguram acesas velas que ao término são levadas para seus lares e com as quais são feitos sinais da cruz nas portas e janelas para que Deus as proteja. Na sexta-feira Santa, pela manhã, são celebrados os Ofícios das Horas Régias, e pela tarde, o Oficio das Vésperas, seguido-se a procissão, exposição e veneração do Santo Sudário “Plashtchanytsia”



 À noite, durante a Vigília Pascal, é celebrado o Oficio dos Cânones da Crucificação do Senhor e das Lamentações da Mãe de Jesus Cristo. O Domingo de Páscoa, pela manhã, inicia-se com a Procissão Pascal até a entrada da igreja, que se encontra fechada, simbolizando o Santo Sepulcro. O celebrante faz o sinal da cruz na porta e, então essa porta é aberta; o Santo Sudário foi recolhido ao Altar simbolizando a Ressurreição de Cristo; dá-se então início à Divina Liturgia de São João Crisóstomo, durante a qual os fiéis participam da comunhão e, após último, é realizada a benção dos alimentos, os quais são trazidos em cestos ricamente decorados com toalhas bordadas e uma vela, tendo ao centro a paska (pão pascal, em forma de bolo ou panetone) e as pessankê, tudo contornado por carne, linguiça defumada, hrim raiz forte, manteiga, queijo, sal e ovos cozidos. Após a missa, com a benção dos alimentos, os amigos e parentes se cumprimentam, trocando as pessankê que simbolizam os desejos de cada um para o outro. E todos se cumprimentam dizendo: “Chrestós Voskrés! Cristo Ressuscitou! Voisteno Voskrés! Em verdade, ressuscitou!”




                            Foto/ Priscila Gorzoni


BOX

Os símbolos das pessankê

Cruz: Cristianismo, vitória contra o mal.

Trigo: Boa colheita.

Pinho ou junco: juventude eterna, saúde.

Estrela: vida, crescimento.

Cavalo, veado, carneiro: riqueza, prosperidade.

Rosas: amor, caridade.

Papoula: alegria, beleza.

Girassol: fortuna.

Triângulo: equilíbrio.

Espirais: proteção.

Linhas serrilhadas: proteção.

Linhas espiraladas: eternidade.

Aves: desejos realizados, sorte.

Galo: fertilidade, sorte.

Pássaro: boas noticias.

Peixes: regeneração.

Escada: ascensão.

Rastelo: casamento.

Rede: separar o bem do mal.



BOX:

O significado das cores



Branco: pureza, símbolo do nascimento.

Amarelo: luz, sabedoria, juventude, alegria.

Laranja: resistência, ambição, força, símbolo do sol eterno.

Rosa: sucesso e contentamento.

Verde: fertilidade, esperança, riqueza.

Vermelho: caridade, despertar espiritual, alegria de vida.

Azul: boa saúde, verdade, fidelidade.

Roxo: fé, confiança, paciência.

Marrom: colheita e generosidade.

Preto: eternidade.



*É jornalista, pesquisadora, historiadora e cientista social. Formada em jornalismo pela Universidade Metodista, com formação em ciências sociais pela USP e Direito pelo Mackenzie, tem especialização em Fundamentos e Artes pelo Instituto de Artes da UNESP de São Paulo e Mestre em história pela PUC de São Paulo. É autora do livro Abre as portas para os Santos Reis da Editora Fundação Pró-Memória, Animais nas Batalhas pela editora Matrix e Os benzedores que benzem com as mãos da editora UCG.










quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

Série As curiosidades sobre São Caetano do Sul
A chegada dos imigrantes
Por: Priscila Gorzoni






Por volta de 1877 quando os beneditinos já haviam deixado São Caetano, começaram a chegar os imigrantes italianos em sua maioria vindos do Vêneto, interior da Itália.  Foi a partir desse grupo que surgiu o primeiro Núcleo Colonial da então Fazenda São Caetano. 

 Fontes: 

Almanaque das curiosidades de São Caetano do Sul (prelo): Priscila Gorzoni.






















*É jornalista, pesquisadora, historiadora. Formada em jornalismo pela Universidade Metodista, com formação em ciências sociais pela USP e Direito pelo Mackenzie, tem especialização em Fundamentos e Artes pelo Instituto de Artes da UNESP de São Paulo e Mestre em história pela PUC de São Paulo. É autora de 11 livros, entre eles Abre as portas para os Santos Reis da Editora Fundação Pró-Memória, Animais nas Batalhas pela editora Matrix e Os benzedores que benzem com as mãos da editora UCG.


 


 

quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

Personagens inusitadas de São Caetano do Sul
Emília de Freitas, de 81 anos
Por: Priscila Gorzoni

 A costureira de Roberto Carlos

                                Foto/Priscila Gorzoni




A aposentada Emília de Freitas, de 81 anos tem orgulho de dizer que já costurou as roupas dos cantores Roberto Carlos e Erasmo Carlos no inicio de suas carreiras. Ela trabalhou como costureira a vida inteira e em uma de suas fases profissionais prestou serviço para uma empresa que consertava as roupas dos famosos.
Mas essa é uma longa história que conto nesse artigo.
Emília é filha de pai português e mãe italiana, nasceu em Mogi das Cruzes onde passou toda a sua infância e juventude. No local tirou o diploma de costureira em um colégio de freiras. Sua rotina na infância se revezava entre as costuras para fora e as brincadeiras na rua. “Brincávamos embaixo da lua, não tinha luz elétrica. Minha mãe criava galinhas, porco, não faltava comida. Somos em 11 irmãs”.
Ela viveu até 16 anos com os pais e se casou no dia 8 de abril de 1950. Emília conheceu o marido no bairro onde morava e passou a namorá-lo em casa. “Naquela época o namoro era totalmente diferente. O namorado vinha à nossa casa só aos sábados e domingos à noite, porque meu pai ficava em casa vigiando. Os únicos passeios que eu fazia era ir às missas aos domingos”.
A ex-costureira morou e trabalhou em várias cidades, a primeira delas foi Santo André, para onde se mudou depois de casada. “Senti falta da família, mas não tinha o que fazer eu ia à casa da minha mãe e voltava chorando. Mas era feliz”.
Passou a morar na casa da sogra porque o marido começou a trabalhar em uma fábrica da cidade. Nessa época teve quatro filhos, um deles morreu. Para ajudar nas despesas da casa trabalhou como costureira para uma oficina de costuras, lá se faziam apenas calças jeans. “Cheguei a fazer muitas calças, nem tenho conta de quantas, só sei que uma vez vieram muitas, mais de 60 calças de uma vez e eu fiz. Só ia embora quanto terminasse o trabalho”.
Foi nessa oficina que Emília costurou as calças de Roberto Carlos e Erasmo Carlos, que começavam a fazer sucesso no cenário musical. “Costurei a primeira calça com a marca do Roberto Carlos. Foi fácil porque eu sei fazer o serviço. Vinham às costuras do Erasmo Carlos e eu sempre fazia, mas nunca os vi. Eu só os via na televisão. Sentia-me bem, porque as minhas costuras deram sorte.”

Os bordados   

Mais tarde a costureira resolveu aprender a bordar e assim criar uma nova forma de ganhar dinheiro. Ela aprendeu a bordar com uma alemã que tinha uma loja em Santo André. A dona da loja dava aulas de costura porque tinha um contrato com as linhas correntes, então quem comprava as linhas poderia fazer as aulas. “Depois que aprendi comecei a vender os meus trabalhos na loja. Vendi muita toalhinha de mão bordada. Não dá para saber quanto tempo demora para fazer cada trabalho porque depende do grau de dificuldade. Tem trabalho que é mais demorado porque é difícil e outros são mais fáceis e rápidos.”
Infelizmente a aposentada parou de bordar há pouco tempo por causa da vista fraca, mas sente muita falta do oficio. “Quanto bordava me sentia muito bem. De presente eu dava os trabalhos que fazia, não precisava comprar, não gastava nada. Hoje eu não tenho dinheiro, não posso comprar presentes, porque é tudo caro.”
A vida financeira de Emília nunca foi fácil. Quando tinha os filhos pequenos o marido precisou fazer muitas horas extras no trabalho para pagar os seus estudos. “Os meus três filhos hoje são formados, mas se espremer o diploma sai sangue. Deu certo, os meus três filhos são engenheiros e estão bem de vida.”
Depois de morar em Santo André, Emília e a família se mudaram para São Bernardo do Campo e ela parou de costurar e começou a bordar. O marido não queria morar em apartamento, mas em casa. Aqui em São Caetano do Sul as casas eram caras, por isso compraram lá. “O meu marido já estava aposentado, porque trabalhava de pintor e soldador e o oficio era insalubre. Com 25 anos ele se aposentou.”
Atualmente a ex-costureira mora em São Caetano do Sul há cinco anos no bairro Santa Maria e tem uma vida muito tranquila. “Fico muito em casa, antes eu bordava, não assistia à televisão, só ouvia o som. Sinto falta, tirava as ideias das revistas, a professora ensinava, você via a professora fazendo, ia e fazia.”, finaliza.

*É jornalista, pesquisadora, historiadora. Formada em jornalismo pela Universidade Metodista, com formação em ciências sociais pela USP e Direito pelo Mackenzie, tem especialização em Fundamentos e Artes pelo Instituto de Artes da UNESP de São Paulo e Mestre em história pela PUC de São Paulo. É autora de 11 livros, entre eles Abre as portas para os Santos Reis da Editora Fundação Pró-Memória, Animais nas Batalhas pela editora Matrix e Os benzedores que benzem com as mãos da editora UCG.

 


segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

Personagens de São Caetano do Sul
Cleide Séspedes de Pinho
Por: Priscila Gorzoni

Quando Nossa Senhora do Rosário chegou ao Bairro Prosperidade



                                                Foto/ Priscila Gorzoni




Cleide Séspedes de Pinho, 68 anos, lembra-se até hoje da chegada de Nossa Senhora do Rosário ao Bairro da Prosperidade. O fato aconteceu em 1950, quando Mário Rodrigues pediu para o irmão comprar uma Santa em Roma, na Itália que devia ser benzida pelo Papa Pio XII. “Ela saiu em novembro 18 de novembro de 1950 de Roma e ficou guardada na casa do seu Silvio Arnese e de outros moradores até a construção da igreja”, recorda.

Em 1953/54 foi colocada a pedra fundamental do templo e teve início  a reunião de documentos necessários para a construção da igreja. “Algum tempo depois, no dia 24 de dezembro de 1954, a igreja foi construída e então a Santa foi entronizada em seu altar. Inclusive eu tenho a nota fiscal comprovando a compra. Mário Rodrigues me deu essa nota fiscal, pois eu trabalhei no escritório dele com contabilidade de 1978 até 91. Por isso tenho muito carinho por esse documento”, conta ela.



Ela era ainda uma menina quando a Igreja da Prosperidade estava sendo construída. Cleide lembra-se da mãe, Assunta Paulina Fiorotti Séspedes e do pai, Valter Sespedes participando ativamente da construção, com tijolos e cimento. “Foi feito um mutirão, eu tinha nove anos e fazia o marmitex. Meu pai fez a primeira eletricidade da igreja. Seu Natalino Lepri, João e seu Nelo foram os pedreiros e ajudaram assim. A dona Nélia, a minha mãe e a dona Laura faziam a comida com outras senhoras e serviam para os trabalhadores”, lembra.

Naquela época o Bairro da Prosperidade era muito alegre, festivo e a Santa estava sempre presente nessas solenidades. “As festas religiosas no Bairro eram a de Nossa Senhora do Rosário, a festa de Nossa Senhora de Fátima, onde se fez o primeiro tapete de pétalas da região, na década de 1960. Nossa Senhora de Fátima veio de Portugal e passou na prosperidade. Sua procissão passou sobre o tapete confeccionado com flores coloridas e pó de café”, narra.


Infância boa, juventude sofrida

Cleide nasceu em São Caetano do Sul, no Bairro da Fundação, perto das Indústrias Matarazzo, no dia 26 de junho de 1945, mas como seu pai fazia aniversário no dia 30, ela foi registrada nesse dia. Os pais são de São Caetano, a mãe nasceu na Rua Rosa, e o pai no Bairro da Fundação. Assunta sua mãe, trabalhou nas Indústrias Matarazzo, como contramestre na fiação até casar-se e ter os filhos. “Ela não trabalhou muito tempo na Matarazzo, pois casou-se em 1940. Meu pai era eletricista e trabalhava em uma fábrica que tinha perto dos trilhos da SPR, era uma Mecânica que tinha ali”, relata.

Embora não trabalhasse, a mãe de Cleide estava sempre envolvida com as atividades da Igreja na Prosperidade. Ela era catequista e até hoje muitos de seus alunos a encontram na rua. “Fui batizada no bairro da Fundação e fiz a minha primeira comunhão na Prosperidade. Também sou filha de Maria. Desde pequena morei na Prosperidade, mas por causa das enchentes mais tarde nos mudamos para o bairro Santa Maria, onde moro atualmente”, conta. 



            Apesar de ter morado em vários bairros da cidade, Cleide guardou as melhores lembranças da Prosperidade. Ela conta que sua família só conseguiu comprar uma casa ali, porque na época os terrenos eram mais baratos. Cleide se lembra muito bem como era o lugar. “A Prosperidade era chamada Vila do sapo, porque tinha muito brejo e estava cheio de sapos. Para cimentar o chão tivemos que pegar cimento de amianto e passar no chão para pisar. Em 1953 tinham poucas casas, era tudo mato. Com três anos ia sozinha na farmácia tomar injeção. Mas não tinha perigo, e nós morávamos no largo, próximo da farmácia e todo mundo tomava conta das crianças. Na Prosperidade nós éramos uma família. Um cuidava dos filhos dos outros. Ninguém sumia. Naquela época não tinha ônibus, o auto bus só chegou depois trazido por Mário Rodrigues. Esse foi o primeiro ônibus, e nessa mesma época foi colocada a pedra fundamental da Igreja. Antes de ter o ônibus nós íamos para a Prosperidade a pé e de bicicleta. Demorava muito. Nós íamos da Gisela até a Prosperidade a pé, minha mãe ia ver o tio dela lá e voltávamos a pé. Na Vila Alpina moravam os parentes da minha mãe, então íamos até a Vila Alpina a pé”, relata.

            Cleide tem saudades de sua infância, ela estudou na primeira escola do Bairro que era de madeira e ficava na Avenida Prosperidade. Eram três turmas, das 8 às 11 horas, 12 às 14 e das 14 às 17. Ela tinha mais irmãos: dois homens e três mulheres: Clóvis, Valdir, Cladys, Cleusa e eu. Apenas o mais velho faleceu. “Nós éramos muito pobres, todo mundo na prosperidade era. Tínhamos amizade com quatro famílias, então as mulheres sentavam nas cadeiras à tarde na rua e nós brincávamos na rua de bater corda, pique, esconde-esconde. Não tínhamos muito sapato, brincávamos descalços, nós juntávamos e fazíamos brinquedos de caixa de sapato. Meus pais compravam bonecas de pano e de papelão. A minha infância foi tranquila, eu fiz até a quarta série, depois só continuava quem tinha dinheiro. Era difícil estudar. Antes da construção da Igreja, todos se reuniam em casa. Vinha um padre fazer uma missa. Quando morria alguém não tinha extrema unção, tínhamos o cemitério da Vila Paula, mas a maioria era enterrada na Vila Linda. Naquela época não tinha caixão, o defunto ia no carro, solto. O que eu gosto mais de me lembrar é da infância, nós tínhamos pouco mas éramos felizes. O meu pai me levava para passear em Santos, tinha o parque Xangai, na Prosperidade. Não tenho o que falar dos meus pais, minha mãe era mais rígida, meu pai não, quem nos educava era a minha mãe, meu pai não ia a igreja, mas ele era mais religioso(cristão) que ela, ele não sabia dizer não”, explica.

            Cleide morou na Prosperidade de 1958 até 82 na Prosperidade. Depois se mudou para Santa Maria por causa das enchentes. Embora Cleide tenha tido uma boa infância, sua juventude não foi nada agradável. Ela sofria preconceito e a perseguição dos colegas da escola, devido a uma deficiência na boca. “Desde pequena eu tive problema na boca e nos dentes. Minha mãe me colocava dentro de uma caixinha de sapato enrolado em algodão, fui batizada às presas porque achavam que eu não viveria três dias. Eu não tinha cálcio. A minha juventude foi diferente da das outras meninas. Não foi fácil, eu sofri muito. Eu tinha problema na boca, nos dentes, eu nunca podia ir ao baile, porque sempre tinha que operar a boca ou estava em repouso de alguma operação. As minhas amigas eram ricas e eu pobre, ia para a escola com as mãos pretas por causa do carvão. Eu era corcunda, por causa do problema que tinha nos ossos. Mas eu superei, cuidei dos meus irmãos porque a minha mãe era muito doente”, relata.

A mãe de Cleide cozinhava bem, fazia arroz, feijão, sopa de feijão, pão, salaminho, pão amanhecido.  Ela misturava a comida italiana com a brasileira, mas só cozinhava quando não estava doente. Cleide começou a cozinhar com nove anos. Mas era durante o Natal que ela e seus irmãos se divertiam comendo os cróstolis da tia e soda limonada com vinho tinto.

Naquela época não tinham tantos médicos, por isso era necessário recorrer às benzedeiras. Ela se lembra das benzedeiras da época, uma delas era Brasilina Lima, que benzia com o auxilio de um terço. “Ela era a mãe da prosperidade. Um dia  meu irmão caiu, sarou mas o braço doía e então eu o levei lá, ela benzeu e ele ficou bom. Ela benzeu a minha irmã a minha mãe teve que conseguir réstia de cebola e erva de Santa Maria para curar a minha irmã”, diz.

A família de Cleide não comprava roupas para os filhos, porque tinham pouco dinheiro. “Nós ganhávamos as roupas das minhas primas. Os sapatos as vezes vinham pequenos por isso íamos descalças para a escola”, lembra. Nos tempos da juventude, ela deu aulas de catecismo e foi dirigente das filhas de Maria. Nessa época usava um vestido branco, fita e uma faixa azul amarrada na cintura.

Cleide casou-se em 1985 e conheceu o marido na casa de Dona Brasilina. “Eu trabalhava lá e ele estava se benzendo. Casei-me com 39 anos e já morava na Santa Maria. Foi uma boa vida, ele era da roça. Tenho apenas um filho que nasceu em 1986, quando tinha quatro anos descobrimos que o meu marido estava com leucemia, cuidei dele que faleceu em 96. Assim que ele morreu a minha mãe teve um AVC, fiquei 10 anos cuidando dela”, relembra. 



                                         Foto/Priscila Gorzoni

Atualmente o filho de Cleide tem 26 anos e é sua única companhia. Ela divide o tempo entre a Liga Católica, da qual faz parte, o curso de cuidadora e as festas na Paróquia São Francisco de Assis. “Viajo com eles, vou às festas da liga, vejo outras pessoas, faço curso de italiano, não fico parada, terminei a escola com 54 anos, quem trabalhou com contabilidade não pode parar”, assegura.

            Cleide se lembra como se fosse hoje da época da emancipação da Prosperidade. Ela conta que quem levantou essa bandeira foi Mário Rodrigues, que fazia parte da Sociedade de Amigos e conhecia os vereadores. “Tudo o que se fez até os dias atuais se deve a Santo André. Inclusive neste poço artesiano em 1960 uns dos vigias caiu e morreu, na época a minha mãe ligou no DAE e acharam o homem morto lá dentro. A minha vizinha dizia que tínhamos tomado água de defunto. Ninguém sabe até hoje o que aconteceu e o poço foi fechado”, relata.

Outro problema sério da Prosperidade eram as enchentes, que pegavam toda a parte baixa da região. As enchentes acabavam com tudo e as pessoas só tinham os amigos para ajudar. Na opinião de Cleide, os políticos nunca deram atenção ao Bairro e Cleide até guardou mágoa de alguns deles, que segundo ela prejudicaram a Prosperidade. “Quem construiu a sede do Vila e do Jabaquara foi o povo em sistema mutirão”, finaliza. 

(ESSE TEXTO NÃO PODE SER COPIADO SEM OS DEVIDOS CRÉDITOS DE AUTORIA, CONFORME A LEGISLAÇÃO DE DIREITOS AUTORAIS LEI 9610, de 19 de fevereiro de 1998, "Dos Direitos Morais do Autor", Artigo 24, Inciso II. POR FAVOR, NÃO COPIEM, COMPARTILHEM O LINK. OBRIGADA) 





*É jornalista, pesquisadora, historiadora. Formada em jornalismo pela Universidade Metodista, com formação em ciências sociais pela USP e Direito pelo Mackenzie, tem especialização em Fundamentos e Artes pelo Instituto de Artes da UNESP de São Paulo e Mestre em história pela PUC de São Paulo. É autora do livro Abre as portas para os Santos Reis da Editora Fundação Pró-Memória, Animais nas Batalhas pela editora Matrix e Os benzedores que benzem com as mãos da editora UCG.








A população do Núcleo Colonial em 1877 Por: Priscila Gorzoni  Você sabia? Em 1888 já havia no Núcleo Colonial (primeira formação de...