segunda-feira, 16 de novembro de 2015

Lembranças do Cine Vitória e dos docinhos de Tio Vicente
 Por: Priscila Gorzoni*




Andar pelas ruas do centro de São Caetano é navegar pelas memórias do tempo. Poucos locais guardam lembranças do que foram em nossa infância, o que é uma pena. Mas alguns locais nos marcaram tanto que ainda conseguimos fechar os olhos e vê-los exatamente como eram nas décadas passadas. Um desses locais é um grande prédio, que fica entre os cruzamentos das ruas. Senador Roberto Simonsen e a Rua. Baraldi. Esse prédio que já foi Igreja, bingo e uma famosa casa de shows, um dia acomodou o Cine Vitória, que ainda ocupa o imaginário de muitos moradores da década de 1980.

Olhando para esse prédio hoje, que apenas lembra o Cinema pela localização, os ladrilhos escuros e as grande portas centrais me recordo da primeira vez que fui ao cinema.

Era então uma sessão das 14 horas, onde o famoso matinê de domingo exibia em primeira mão o filme: Marcelino pão e vinho. Lá fui eu com minha irmã e mãe comprar o bilhete de entrada no Cine Vitória. Ele era o principal cinema de São Caetano, por isso vivia com longas filas.

Majestoso bem no centro da cidade, o Vitória vivia cheio de gente e nas matinês lotado de crianças barulhentes e comilonas.

Depois desse dia em que entrei na sala de exibição e vi uma enorme sala cheia de cadeiras, nunca mais deixei de visitar o cinema, virei fã. Se passaram os meses, os anos e então foi a vez do ET, um filme muito concorrido que para pegar um bom lugar era preciso chegar bem cedo e enfrentar a fila na porta.

Mesmo quando não tinha filme para assistir eu gostava de dar uma passada na frente do Vitória e ver os cartazes com as próximas exibições.

Para quem não sabe, o Cine Vitória recebeu esse nome justamente em homenagem ao seu criador Vittorio Dal´ Mas, que chegou ao município aos 12 anos e tornou-se um grande empresário. Ele tinha o sonho de construir um grande edifício em São Caetano, mas só concretizou isso após a autonomia político administrativa.

Em 1949 foram feitos estudos e projetos do edifício e em 50 iniciou-se a construção do prédio.

Em 11 de fevereiro de 1995 o Cine Vitória novamente foi lembrado durante uma palestra feita no prédio da Fundação pelo engenheiro Mário Dal´Mas. Nela ele relatou as expectativas da construção do cine Vitória e o burburinho da cidade nessa época. Segundo Mário as construções eram vistas como uma loucura, diziam que tal edifício não poderia ser comportado pela cidade. No entanto a família Dal´Mas continuou firme em seus propósitos até que inaugurou o Vitória em 30 de setembro de 1953 com a presença do então prefeito Anacleto Campanella.

O projeto foi feito com recursos próprios, e constava de um cinema, 56 salas comerciais, vários salões de festas, uma galeria de 12.000 metros quadrados e o restante área comercial. Durante esse tempo o prédio abrigou vários departamentos, entre eles: Poderes executivos, Legislativo, cartório, grêmio e foi palco de exposições de arte (2).

A inauguração do Cine Vitória foi marcada pelo lançamento de uma revista, ela fez tanto sucesso que acabou tendo um segundo número em comemoração ao aniversário da cidade.

Na primeira revista, o Cine Vitória era apresentado ao público com um equipamento de última geração: som e projeção simples X-L, o que o comparava aos melhores cinemas do mundo. Fora isso os filmes exibidos eram os programados pela Companhia Cinematográfica Serrador, Art Palácio, Ipiranga, Bandeirantes, Opera e Broadway. Frente a tanta sedução, o Vitória foi inaugurado numa terça-feira às 21 horas no dia 29 de setembro de 1953. “A avant-premiére foi patrocinada pelo Rotary de São Caetano do Sul, em prol da construção de um posto de puericultura. O filme estrelado era O falcão Dourado em technicolor”, conta Ademir Médici, jornalista (3). Depois dele o Vitória viveu seus autos e baixos. Chegou a se transformar em dois cinemas: Cine Vitória I e II.

Desde o inicio o Vitória contou com poltronas estofadas, sistema moderno de projeção, acústica e ventilação bem cuidadas e uma boa visibilidade já que a sala foi construída em dois planos. Também foi realizado um contrato com a Distribuidora Serrador para que os filmes recém-lançados fossem exibidos em primeira mão (4).

Mais tarde o Vitória viveu sua primeira grande restauração para recuperar o seu estilo original e tentar resistir à invasão dos shoppings. Ele ressurgiria com um novo sistema de iluminação e som em um investimento feito com Cr$ 14 milhões.

É impossível pensar no Cine Vitória e não se lembrar da Doceria Jóia ou do Tio Vicente. Ela ficava em um local estratégico, na esquina da Baraldi e exatamente na frente do Cine Vitória. Os doces ali eram inesquecíveis, um deles eram as pequenas maçãzinhas cuidadosamente modeladas com recheios de amêndoas.

Tio Vicente se chamava Vicente Gombi e chegou a São Caetano do Sul em 1953. Nascido na cidade de Rokovci, na Iugoslavia em 1914 veio para a cidade estimulada pelos amigos que aqui viviam. Morou durante antes no bairro Vila Paula e teve como o primeiro emprego carregar barro na Cerâmica São Caetano. Mais tarde, começou a trabalhar no restaurante Rutly como lavador de pratos e ali pegou o gosto pela culinária. Dali mudou de emprego, desta vez para uma doceria em São Paulo e mais tarde, montou a sua própria doceria. A Doceria Jóia funcionou até o final da década de 1990.

Assim, como a Doceria de Tio Vicente, o Cine Vitória perdeu a força. Foram substituídos por outros estabelecimentos e a dinâmica da modernidade.

No caso do Cine Vitória, a moda de construir cinemas dentro de shoppings enfraqueceu sua majestade e então ele se transformou em uma casa de shows, acabou sendo substituído por outros cinemas da região e da cidade.

A derrocada final do Cine Vitória aconteceu em uma terça-feira 1 de setembro de 1998. Era então um dia comum se não fosse pela última sessão de seu funcionamento. Na sala de cinema apenas 100 espectadores assistiram ao filme norte-americano Armaggedon.

Antes do Cine Vitória surgiram outros cinemas na cidade. As primeiras salas de exibições que se tem notícias apareceram na década de 1910 (1).

Em 1916 foi encontrado o indicio de uma dessas salas em um pedido de alvará para cinematógrafo feito por José Golfetti na Rua. Rio Branco. Outros nesses mesmos moldes manuais foram encontrados pela cidade entre eles um na Rua. Heloisa Pamplona. Mais tarde em 1922 surgiu a verdadeira ideia de cinema então com o Cine Central da Rua. Perrella, 319 propriedade de Attílio Santarelli (1). Aliás a fachada desse cinema ainda pode ser visitada, ela foi restaurada recentemente.

O Cine Central tinha uma curiosidade, quando a sessão ia começar tocavam uma sirene para avisar as pessoas. Eram três toques: o primeiro era o mais forte e podia ser ouvido até a Avenida Goiás. Um dia por semana tinha a sessão das moças, que desde que acompanhadas não pagavam ingresso.



Fonte: O livro das curiosidades de São Caetano do Sul, Priscila Gorzoni

(ESSE TEXTO NÃO PODE SER COPIADO SEM OS DEVIDOS CRÉDITOS DE AUTORIA, CONFORME A LEGISLAÇÃO DE DIREITOS AUTORAIS LEI 9610, de 19 de fevereiro de 1998, "Dos Direitos Morais do Autor", Artigo 24, Inciso II. POR FAVOR, NÃO COPIEM, COMPARTILHEM O LINK. OBRIGADA)

Esse texto foi publicado originalmente no http://promemoriasaocaetano.blogspot.com.br/ 


Para saber mais:   http://promemoriasaocaetano.blogspot.com.br/ 

NOTAS:
(1)   XAVIER, Sônia Maria Franco, Os cinemas de São Caetano- Revista Raízes 39, julho de 1991.
(2)   DAL`MAS, Mário, Edifício Vitória: o ideal de um imigrante, Raízes Julho de 1995.
(3)   Jornal Diário do Grande ABC, Grande ABC Memória, Ademir Médici, setembro de 1953.
(4)XAVIER, Sônia Maria Franco, Os cinemas de São Caetano- Revista Raízes 39, julho de 1991.

*É jornalista, pesquisadora, cientista social e mestre em historiadora. Formada em jornalismo pela Universidade Metodista, com formação em ciências sociais pela USP e Direito pelo Mackenzie, tem especialização em Fundamentos e Artes pelo Instituto de Artes da UNESP de São Paulo e Mestre em história pela PUC de São Paulo. É autora do livro Abre as portas para os Santos Reis da Editora Fundação Pró-Memória, Animais nas Batalhas pela editora Matrix e Os benzedores que benzem com as mãos da editora UCG.


domingo, 15 de novembro de 2015

O assustador homem da capa preta
 Por: Priscila Gorzoni*




Hoje é comum sairmos a noite nas ruas e cumprirmos os nossos compromissos, mas nas décadas de 1920 e 30, a maioria das mulheres e crianças tinham medo de sair.

Tudo porque existia uma lenda famosa na cidade de que as mulheres e crianças que andassem pelas ruas eram perseguidas pelo Homem da Capa Preta.
Essa figura famosa e assustadora é descrita como um homem alto, rosto magro, que vagava pelas ruas altas horas da madrugada usando uma longa capa preta. Daí ele passou a ser conhecido como o Homem da Capa Preta.

As mulheres mais antigas contam que a função do Homem da Capa Preta era fazer com que as mulheres e as crianças ficassem em casa a noite e obedecessem seus pais. Tanto que citar o Homem da Capa Preta era como chamar o Homem do Saco, outra famosa assombração que obrigada as crianças a obedecerem seus pais.

Mas não se enganem os que adoram esses relatos folclóricos, segundo depoimentos da época, na década de 1930 e 40, essa figura nada tinha de sobrenatural, muito pelo contrário. Ele o Juiz de Paz João Rela (1) que adorava mostrar como era respeitado, vestindo uma Capa Preta que lhe caia abaixo dos joelhos.

Relato mais contundente dessa figura aparece quando Elvira e Olívia Buso sairam para fazer compras no açougue dos Lorenzini, na Rua Rio Branco, quando já escurecia. Atemorizadas pela escuridão da época, elas já saíram sugestionadas  pelo temor da perseguição do Homem da Capa Preta. Ora, isso foi dito e feito! Pois, quando
 já estavam retornando, deram-se conta de que estavam sendo seguidas por um vulto de Capa Preta. Então puseram-se  a correram, muito assustadas. (2).

José de Souza Martins faz uma análise interessante sobre esse personagem curioso que surge exatamente na época de repressão policial junto aos operários comunistas.

Ademir Médici em Migração e Urbanização: a presença de São Caetano na região do ABC, dedica um pequeno espaço ao personagem. Ele conta que João Rela levou para o túmulo a fama de ser o Homem da Capa Preta. Todos sabiam que ele era o personagem enigmático. No entanto, nunca um inquérito foi aberto e nem uma prova mais concreta foi apresentada. Mas, ficou a versão, assumida por ele próprio, com muito humor, entendida pelos amigos e familiares, colocada, vez ou outra, pela imprensa semanal.

O homem da Capa Preta simbolizava não só uma lenda, mas o rigor disciplinar dos costumes da época, quando raras mulheres e crianças se permitiam sair às ruas altas horas da noite. Portanto, não é à toa que eram as donzelas as mais assustadas com o Capa Preta. Provavelmente usar capa preta na época era coisa rara e com certeza muitos nunca haviam visto uma, fora isso, a negra escuridão, fazia o resto.

BOX: “O vereador Sr. Rela talvez em 3 de janeiro realize a sua esperada conferência em ´si bemol`, conforme prometeu ao povo de São Caetano em 1930, sob o tema O homem da capa preta. S.S. está decorando a primeira e única lauda de sua formidável peça oratória, não querendo imitar seus colegas de bancada: ler discursos. Diz o sr. Rela que não é papagaio”. C.f. O São Bernardo, coluna factos e boatos, domingo, 13 de junho de 1937. Fonte: Médici, Ademir: Migração e Urbanização: Presença de São Caetano do Sul na região do ABC, Editora Hucitec, São Caetano do Sul, 1993.

BOX: Quem foi ele?

João Rela nasceu em Itatiba, SP, em 16 de setembro de 1889, filho de Giácomo e Antonieta Rela. Veio para o ABC na década de 1910. Foi chefe da Estação ferroviária, em Campo Grande e, em 1917, mudou-se para São Caetano, como chefe da Estação local, na ferrovia SPR. Aqui João Rela montou a primeira padaria do Monte Alegre, em 1928. Ele teve também seu escritório de despachante. Foi vereador e Juiz de Paz. Ele também escrevia poemas e contos. Faleceu no dia 3 de junho de 1970, aos 81 anos.





Fonte: O livro das curiosidades de São Caetano do Sul, Priscila Gorzoni

(ESSE TEXTO NÃO PODE SER COPIADO SEM OS DEVIDOS CRÉDITOS DE AUTORIA, CONFORME A LEGISLAÇÃO DE DIREITOS AUTORAIS LEI 9610, de 19 de fevereiro de 1998, "Dos Direitos Morais do Autor", Artigo 24, Inciso II. POR FAVOR, NÃO COPIEM, COMPARTILHEM O LINK. OBRIGADA)

Para saber mais:   http://promemoriasaocaetano.blogspot.com.br/ 

Referências Bibliográficas:

CASCUDO, Luis Câmara. Dicionário do folclore brasileiro. São Paulo: ed. Global, 2002.
________. Geografia dos mitos brasileiros. São Paulo: ed. Global, 2002.
________. Locuções tradicionais no Brasil. São Paulo: Global, 2002.
MÉDICI, Ademir: Migração e Urbanização: Presença de São Caetano do Sul na região do ABC, Editora Hucitec, São Caetano do Sul, 1993.

*É jornalista, pesquisadora, historiadora. Formada em jornalismo pela Universidade Metodista, com formação em ciências sociais pela USP e Direito pelo Mackenzie, tem especialização em Fundamentos e Artes pelo Instituto de Artes da UNESP de São Paulo e Mestre em história pela PUC de São Paulo. É autora do livro Abre as portas para os Santos Reis da Editora Fundação Pró-Memória, Animais nas Batalhas pela editora Matrix e Os benzedores que benzem com as mãos da editora UCG.



sexta-feira, 13 de novembro de 2015

Uma Capela perdida no tempo

Por: Priscila Gorzoni*


                       Acervo/Fundação Pró Memória de São Caetano do Sul


            Quem vem tranquilamente caminhando pela Avenida Senador Roberto Simonesen, em direção a Avenida Goiás se surpreende ao cruzar com uma rua, uma travessa chamada Rua. Constituição. Entrando nessa rua, bem no meio dela, nos deparamos com uma pequena capela azul, tímida e misteriosa.

Além da Capela dos Cavana existe outra capela na cidade, chamada de Capela de Santo Antônio, que fica na Rua. Constituição sem número, no Bairro Santo Antônio.
            Essa capela, apesar de pequena e escondida é interessante. As paredes são de azulejos bem azuis o que faz um belo contraste com os portões brancos. Apesar da simplicidade, ela se destaca das casas em sua volta. É uma construção que ficou no tempo, na história. Como uma foto preta e branca que fala por si.

            Tímida e curiosa é uma das poucas capelas que sobraram dos antigos moradores da cidade. Ela carrega em suas paredes histórias de São Caetano do Sul.

            A ´verdadeira` Capela Santo Antônio foi construída em 1924 por Ricardo Mariani Molinaro, e ficava na antiga rua. Santo Antônio, atual Avenida Senador Roberto Simonsen. Ela foi demolida e reconstruída em 1960, na Rua. Constituição.

            Esse é sem dúvida um dos pontos mais interessantes e importantes para se visitar na cidade.
            Assim como a Capela Santo Antônio, em todo o ABCD surgiram várias capelas em devoção de diversos santos e santas, mas parece ter sido Santo Antônio o privilegiado.

            Os antigos moradores explicam essa predileção de uma maneira inusitada. Diziam que as famílias assentadas no Núcleo Colonial confundiram em principio, a imagem de São Caetano existente na primitiva capela local, com a de Santo Antônio, porque eram muito semelhantes e ambos os santos carregavam o Menino Jesus nos braços.

            A Capela Santo Antônio foi construída pela família de João Molinari em retribuição a um milagre. Contam que no verão de 1919, desabou um temporal em São Caetano do Sul e a família colocou-se a rezar em torno do oratório que guardava um Santo Antônio trazido de Modena, na Itália em 1885. Quando isso acontecia, uma faísca afetou o telhado e atingiu o oratório, sem causar danos maiores, deixando a imagem do santo ilesa e inclusive mantendo as suas velas acessas.

            Assustados com o milagre, a família construiu uma capelinha e sobre a porta de ferro colocou uma placa de mármore com os seguintes dizeres: “Capela Sant Antonio, Ricordo di Mariana Molinari-1924”.

            A capelinha original foi demolida em 1960 para abertura da rua. Constituição e outra foi construída ao lado da antiga, sendo preservada até os dias atuais, com a imagem centenária.

Box: Os Molinari vieram da Itália para São Caetano do Sul e passaram a morar no bairro Cerâmica. A primeira atividade dos Molinari foi cultivar a terra, construir sua casa de madeira roliça e portas improvisadas de caixões. A casa foi levantada na rua. Projetada, que depois ganhou o nome de Santo Antônio, em função da capela Santo Antônio, dos Cavana, provavelmente onde é hoje a avenida Senador Fláquer. Os primeiros Molinari eram Giovanni Molinari e sua mulher Mariana Nery Molinari. Quando chegaram ao Brasil da Itália, moraram em São Paulo e só em 1894 mudaram-se para São Caetano do Sul.

Em São Caetano, os Molinari foram recebidos pelos Cavana, que viviam em uma colônia que ficaria hoje o cruzamento das ruas. Senador Roberto Simonsen e Baraldi. Os Molinari e Cavana então e tornaram grandes amigos e seus filhos até se casaram. Nos negócios, os Molinari se fixaram no bairro Cerâmica e abriram uma fábrica de colchão chamada Giovanni Molinari & Figli.  

Outra atividade que os Molinari desenvolveram foi no bairro Cerâmica, no trabalho de beneficiamento de caulim. O produto era extraído na Vila Nossa Senhora das Mercês. Eles arrendavam as terras, venciam a mata virgem, andavam de carros de boi até chegar na cava. Carroças e carroções retornavam com caulim até a Estação São Caetano, de onde era enviado aos compradores.




Fonte: O livro das curiosidades de São Caetano do Sul, Priscila Gorzoni

(ESSE TEXTO NÃO PODE SER COPIADO SEM OS DEVIDOS CRÉDITOS DE AUTORIA, CONFORME A LEGISLAÇÃO DE DIREITOS AUTORAIS LEI 9610, de 19 de fevereiro de 1998, "Dos Direitos Morais do Autor", Artigo 24, Inciso II. POR FAVOR, NÃO COPIEM, COMPARTILHEM O LINK. OBRIGADA)

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Referências

Antônio, santo dos italianos, dos portugueses....e de todo mundo, Valdenízio Petrolli, Revista Raízes 13.

Era uma vez....(crônica de uma época), Jayme da Costa Patrão, revista Raízes 4.
Migração e Urbanização: a presença de São Caetano na região do ABC, Ademir Medici.



A morte do Baraldi
Por: Priscila Gorzoni*



Quem conheceu Ernesto Baraldi nunca imaginou que ele teria um triste fim. 

Na década de 40 seu assassinato ganhou as manchetes dos jornais da cidade e marcou uma época da história.

O assassinato aconteceu em sua própria casa e seu corpo ficou durante horas exposto no pátio de seu quintal, que era exatamente onde hoje fica a frente da Matriz, no Centro da cidade.

Quando piso o pátio todo trabalhado em frente a Igreja imagino o corpo do assassinado ali caído, sendo olhado por quem passava, esperando pelo descanso eterno. Fico pensando se o local não se tornou assombrado, assombrado pelos passos de Ernesto Baraldi. Dizem que a noite se ouvem passos no local e vultos estranhos. Verdade ou mentira, o fato é que os Baraldi marcaram um espaço importante na história de São Caetano do Sul.

Os Baraldis viviam em uma grande casa no centro de São Caetano. A casa ficava na Rua. Baraldi e pegava onde hoje é o terreno da Matriz. A casa ficava ao lado da fazenda da família e a praça Cardeal Arco Verde era o quintal. A propriedade abrangia as ruas Santa Catarina, Pará, Rio Grande do Sul, parte da Goiás, entre outras.

A família Baraldi chegou a São Caetano em 1878, na segunda leva de italianos. O patriarca da família era Luiz Baraldi, que teve vários filhos, entre eles Ernesto Baraldi.

Luiz Baraldi veio da Itália com a esposa Luiza Negrelli Baraldi, a sogra Catharina Negrelli e os filhos Primo segundo Baraldi e Ernesto Baraldi. Luiz faleceu no dia 28 de setembro de 1892.

Ernesto era um homem magro, sem estudo que não tirava o chapéu da cabeça para nada.  Ele é descrito como um homem bom, mas gostava de caçar, saia pelas matas matando veados. Ele costumava dizer que caçar um veado era o suficiente, o que não o redimia de seus pecados.

Por outro lado, Ernesto não gostava de mentiras, mas costumava ouvi-lás sem interromper o seu interlocutor. Nessas horas ele costumava esfregar as mãos e dizer: “A pior coisa é você desmentir um mentiroso. Para que isso? A gente não ganha nada em desmentir”.

Ele tinha um lado ecológico, não gostava que tirassem os palmitos da mata e nem de desperdício.

Casou-se como Santina Anna Corradi Baraldi, que era uma mulher muito econômica e brava. O casal teve cinco filhos: dois faleceram e os outros três eram Luiz Primo Baraldi Netto, Egydio Segundo Baraldi e Elza Baraldi. O casal criou duas filhas adotivas: Rosina e Rosa Massolini.   

Os Baraldis eram muito influentes na cidade e por terem doado terras ao município detinham certo poder. Poder esse que foi usado por Santina Anna, quando tentaram mudar o nome da rua que moravam de Baraldi para Mato Grosso. Santina não pensou duas vezes, enfrentou a prefeitura e conseguiu o que desejava. Mas não foi apenas desta vez que mostrou a personalidade forte que tinha, não gostava de caçadas e era econômica ao extremo. Era também muito religiosa por isso não colocou obstáculos a doação de suas terras para a construção da Matriz.

O assassinato de Ernesto aconteceu no dia 25 de dezembro de 1944, quando o filho Egydio ofereceu um prato de coxinhas para o pai.

Egydio então lançou a bandeja para os ares e matou a navalhadas o pai. Para não ser preso, o assassino fugiu para o mato, seguindo pela Estrada das Lágrimas, lá um garoto de bicicleta o reconheceu, chamou os policiais e Egydio foi preso.

Ele foi condenado a 32 anos de prisão, cumpriu 22 e faleceu um tempo depois. Egydio está sepultado em São Caetano.   

             No livro de tombo da matriz Sagrada Família, o padre Alexandre Grigolli escreveu: “A uma hora depois do meio dia morreu assassinado pelo próprio filho, o Sr. Ernesto Baraldi, o maior benfeitor da matriz. O fato horrendo deu-se no próprio pátio da matriz, ficando o corpo da infeliz vitima exposto à curiosidade do público por diversas horas. Deus receba na sua misericórdia o pai infeliz, e dê a graça do arrependimento ao filho mais infeliz”.       

               É provável que o assassinato não tenha sido uma surpresa para Ernesto. Um dia antes, ao visitar uma de suas filhas, ele teria digo que pressentia a sua morte, pelas mãos do próprio filho.


Fonte: O livro das curiosidades de São Caetano do Sul, Priscila Gorzoni


(ESSE TEXTO NÃO PODE SER COPIADO SEM OS DEVIDOS CRÉDITOS DE AUTORIA, CONFORME A LEGISLAÇÃO DE DIREITOS AUTORAIS LEI 9610, de 19 de fevereiro de 1998, "Dos Direitos Morais do Autor", Artigo 24, Inciso II. POR FAVOR, NÃO COPIEM, COMPARTILHEM O LINK. OBRIGADA)

Referência:

“Crônicas da rua. Baraldi”, de Ademir Medici, Revista Raízes 3.

*É jornalista, pesquisadora, cientista social e mestre em historiadora. Formada em jornalismo pela Universidade Metodista, com formação em ciências sociais pela USP e Direito pelo Mackenzie, tem especialização em Fundamentos e Artes pelo Instituto de Artes da UNESP de São Paulo e Mestre em história pela PUC de São Paulo. É autora do livro Abre as portas para os Santos Reis da Editora Fundação Pró-Memória, Animais nas Batalhas pela editora Matrix e Os benzedores que benzem com as mãos da editora UCG.



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terça-feira, 10 de novembro de 2015

Seção Lugares inusitados de São Caetano do Sul

A Capela dos Cavana
Por: Priscila Gorzoni 


Acervo/Fundação Pró- Memória de São Caetano do Sul

    

            A Capela dos Cavana fica na Rua Luiz Cavana sem número. Essa pequena capela branca, escondida em uma das travessas da Rua Roberto Simonsen, foi construída em homenagem a Santo Antônio, por Ângelo Cavana e preservada pelas novas gerações da família.

            Várias missas foram celebradas nessa Capela a partir de junho de 1893. A história da família Cavana em São Caetano é bem antiga e, como todos os moradores da cidade, conservavam a tradição religiosa dos seus antepassados, imigrantes italianos.

            Nos primeiros tempos de São Caetano, existia apenas a Igreja Matriz Velha, construída em 1883, no Bairro da Fundação. Mas os imigrantes italianos eram muito religiosos e tinham o costume de construir capelas nos terrenos de suas casas. Assim a família Cavana, que tinha um grande terreno no Bairro Centro, sob o comando de Dona Joana Cavana, matriarca da família, decidiu erguer a Capela dos Cavana na década de 1880.

            Naquela época, as casas eram bem diferentes das atuais, eram chamadas de cortiços e reuniam até 15 famílias em um mesmo terreno.           O cortiço dos Cavana era uma referência e tinha a forma arredondada. Havia, como nos demais, uma solidariedade entre as famílias. No pátio eram realizadas as festas juninas e outras.

Na época, a Capela era grande e bem espaçosa, era ali que Adolphina Geccato e a jovem Santa Cavana, neta de Joana, ministravam aulas de catecismo, preparando meninas e meninos para a primeira comunhão (primeira Eucarístia). Nos dias 13 de junho, dia de Santo Antônio, um padre deslocava-se da Matriz Velha para rezar uma missa na Capela, que era assistida por centenas e centenas de fiéis.

 Se ainda existisse, exatamente como era, a Capela ficaria a 100 metros de onde era o Cine Vitória, na Rua Baraldi. Ela foi demolida e deu lugar a uma Capela menor, atualmente na Rua. Luís Cavana.

            A denominação de Vila Santo Antônio, que posteriormente se generalizou em direção a outras colônias, nasceu da Capela que os Cavana construíram e é oficializada quando da abertura do loteamento nas terras dos Cavana. Mas a expressão Vila Santo Antônio só se consagrou no final dos anos 1930. 



Nesse link do meu canal no you tube chamado Diários de uma repórter eu entro na capela dos Cavana e mostro um pouco da capela por dentro e por fora.
 https://www.youtube.com/edit?o=U&video_id=c0aY5n7gCbE

Fonte: O livro das curiosidades de São Caetano do Sul, Priscila Gorzoni

(ESSE TEXTO NÃO PODE SER COPIADO SEM OS DEVIDOS CRÉDITOS DE AUTORIA, CONFORME A LEGISLAÇÃO DE DIREITOS AUTORAIS LEI 9610, de 19 de fevereiro de 1998, "Dos Direitos Morais do Autor", Artigo 24, Inciso II. POR FAVOR, NÃO COPIEM, COMPARTILHEM O LINK. OBRIGADA)


*É jornalista, pesquisadora, historiadora. Formada em jornalismo pela Universidade Metodista, com formação em ciências sociais pela USP e Direito pelo Mackenzie, tem especialização em Fundamentos e Artes pelo Instituto de Artes da UNESP de São Paulo e Mestre em história pela PUC de São Paulo. É autora do livro Abre as portas para os Santos Reis da Editora Fundação Pró-Memória, Animais nas Batalhas pela editora Matrix e Os benzedores que benzem com as mãos da editora UCG.

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[i] Termo definido por Pierre Nora no texto Entre memória e história: a problemática dos lugares.
[ii] Termo citado por Maurice Halbwachs em A Memória Coletiva.

quinta-feira, 15 de outubro de 2015

O misterioso curandeiro Vicente.
 Texo e fotos: Priscila Gorzoni*



O cemitério São Caetano não é só famoso por ser o primeiro cemitério da cidade inaugurado em 1911, mas por ter entre os seus falecidos uma das figuras mais enigmáticas da história, Vicente O curandeiro.
            Esse famoso ilustre era tão conhecido que ainda hoje recebe romarias de doentes que vem em busca de milagres e graças.
            Ele se chamava Vicente o curandeiro e teve esse nome por ter sido um dos maiores benzedores da região.
Vicente tinha uma fama que rompia distâncias, dificuldades, crenças e o seu túmulo, ainda hoje é um dos mais visitados do Cemitério São Caetano.
            Demoro um pouco para encontrar o túmulo de Vicente. O Cemitério São Caetano, embora pequeno é repleto de túmulos suntuosos e capelas esculturais. O túmulo de Vicente é baixo, simples, tímido. Ele está na parte de cima do Cemitério São Caetano, meio esquecido, sujo das folhas das árvores e do pó do tempo. No meio de sua aparência de abandonado vejo a foto do curandeiro.
Quando olho na foto do túmulo de Vicente vejo um homem de chapéu, barbas longas, olhar penetrante e semblante misterioso. Imagino a reação das pessoas ao se depararem com um homem assim.
            Contam que Vicente tinha um estilo peculiar de benzer. Ele recebia os doentes na porta de casa com um caderno nas mãos onde anotava os nomes das pessoas e em frente a eles marcava uma cruz. Depois que fazia isso, Vicente ou como era conhecido pai Vicente, dizia ao visitante que iria colocar seu nome nas luzes. Em seguida pedia que o visitante voltasse daqui a alguns dias.
            Vicente não cobrava nada por suas curas, somente ouvia as pessoas. Quando acabava as rezas preferia que lhe falassem: “Deus lhe pague” e sempre respondia: “Amén nós tudo”.
            Também não gostava que fizessem brincadeiras com os seus benzimentos. Um dia veio a sua capela dos rapazes do Ipiranga. Um deles esfregou as mãos na boca dizendo que sentia dor de dente. Vicente logo percebeu ser mentira e disse: “Você veio me debochar. Então vai ficar com dor de dente mesmo”. Não deu outra, imediatamente o rapaz jogou-se no chão sentindo dores terríveis de dente.
A segunda-feira era o dia de maior movimento, porque Vicente não atendia aos domingos. Antes de atender os visitantes, Vicente distribuía fichas a atendia rapidamente a cada um, colocando a mão no ombro das pessoas e indicando que passassem adiante.
Outra curiosidade de Vicente era atender ao público com a mão direita para cima. Perguntava o nome da pessoa e dizia as perturbações espirituais e as moléstias dos indivíduos. Por fim recomendava novena.
Vicente morava no bairro Santa Maria e faleceu em 1925. Por causa dele se criou uma estrada, onde milhares de pessoas passavam, só para conseguir uma cura.
Enquanto olho a foto do barbudo Vicente fico imaginando como seria receber seus benzimentos. Tenho uma base deles em relatos escritos por Admir Medici em seu livro Migração e Urbanização. Medici conta um dos casos, o de Caetana Palmiro, que em 1920, com 2 anos de idade não conseguia andar. Assim seus pais resolveram levá-la ao pai Vicente. O curandeiro então tirou das mãos um anel de pedra preta e passou em Caetana. Depois ordenou que a criança fosse levada ao pátio de sua casa, onde ela começou a andar.
O curandeiro Vicente não era nascido em São Caetano, ele viera com a sua família de Santo Amaro entre 1906 e 1909.
Ele era casado com Maria Joaquina de Jesus Vaz Rodrigues Vieira, que na data do falecimento do marido, em 1925, tinha 44 anos. O curandeiro faleceu em março de 1925.
Mas os romeiros que vinham de longe tinham que ter paciência, pois chegar à casa de Vicente não era tarefa fácil, o casarão do benzedor estava localizado na parte alta do bairro da saúde (atual santa Maria).
Os romeiros desembarcavam na estação ferroviária, caminhavam até o centro e entravam na Rua João Pessoa, conhecida na época como Virgilio Rezende. Os romeiros então ganhavam a Rua. Goiás, que era conhecida na época como Formicida, atingia a Alameda São Caetano e no final da Rua. Cassaquera, onde atualmente é a Praça Francisco Pires, fica a capela de Vicente.
O ponto exato da casa em que o curandeiro Vicente atendia localizava-se hoje, entre a Alameda Cassaquera, rua. Arary, rua. Guarda-Mor Greenhargh e rua. Lomas Valentina.
            A casa de Vicente era uma fazenda, que tinha uma capela particular junto ao terreiro toda decorada em tons dourados, pintada com figuras de anjos e santos.
Os que chegavam eram recebidos por Vicente o curandeiro em sua capela particular. No altar de sua casa de orações existia um Cristo Crucificado e a imagem de São Pedro, cujo aniversário, no dia 29 de julho era comemorado com festa.
            Quando Vicente morreu, seu corpo foi levado para a Matriz. Já na porta, o padre Pelanda postou-se na porta e disse: “-Aqui ele não entra”. E não entrou. Porém a população que gostava muito de Vicente, não deixou Pelanda durar muito na cidade.


Fonte: O livro das curiosidades de São Caetano do Sul, Priscila Gorzoni


(ESSE TEXTO NÃO PODE SER COPIADO SEM OS DEVIDOS CRÉDITOS DE AUTORIA, CONFORME A LEGISLAÇÃO DE DIREITOS AUTORAIS LEI 9610, de 19 de fevereiro de 1998, "Dos Direitos Morais do Autor", Artigo 24, Inciso II. POR FAVOR, NÃO COPIEM, COMPARTILHEM O LINK. OBRIGADA)

Referências bibliográficas:
MÉDICI, Ademir: Migração e Urbanização: Presença de São Caetano do Sul na região do ABC, Editora Hucitec, São Caetano do Sul, 1993.

* É jornalista, pesquisadora, historiadora. Formada em jornalismo pela Universidade Metodista, com formação em ciências sociais pela USP e Direito pelo Mackenzie, tem especialização em Fundamentos e Artes pelo Instituto de Artes da UNESP de São Paulo e Mestre em história pela PUC de São Paulo. É autora do livro Abre as portas para os Santos Reis da Editora Fundação Pró-Memória, Animais nas Batalhas pela editora Matrix e Os benzedores que benzem com as mãos da editora UCG.

Para ver mais posts sobre São Caetano do Sul: http://promemoriasaocaetano.blogspot.com.br/

segunda-feira, 7 de outubro de 2013

Crônicas de benzimentos
AS MÃOS QUE ABENÇOAM
Por: Priscila Gorzoni*

Esse texto é uma homenagem a Dona Dolores e a todas as benzedeiras que já não estão mais entre nós, mas que me ensinaram muito....




-Pronto você já está bem!

Finalizou Dona Dolores, 96 anos, benzedeira espanhola famosa dos arredores do bairro santo Antonio. Depois de rezar, pedir que eu me sentasse em sua frente num pequeno banquinho, ela me olhou detalhadamente e disse:


-Você precisa de reza, pega quebrante fácil....

Não titubiei há muito tinha ouvido falar de Dona Dolores, espanhola sacudida e uma das mais antigas moradoras de São Caetano. Eu a imaginava mais gasta pelo tempo, mas me deparei com uma bela senhora de idade, olhinhos brilhantes em tom de pequenas gotas de um azul puro tecendo em suas mãos o terço gasto de reza. Dona Dolores é daquelas que não deixa de rezar um dia sequer, um ministro vem uma vez por semana em sal casa lhe dar a comunhão e quando não está benzendo, está rezando. Vai rezando em um som quase apagado e até se esquece de minha presença na sala de estar....


-Ave Maria cheia de graça, senhor......

Do outro lado está sua filha Terezinha, rosto de educadora e atenção redobrada em Dona Dolores. Ela foi a filha que restou ao lado da mãe, quase centenária, os outros irmãos estão espalhados pelo estado de São Paulo. Mas Terezinha ficou.....Resolveu cuidar da pequena velhinha e é feliz assim. O silêncio da sala é apenas interrompido pelo barulho dos carros lá fora.

Depois de terminar a ladainha Dona Dolores resolve falar, contar sua história que vem antiga, lá atrás quando os imigrantes espanhóis aqui chegaram de navios. Ela então era uma menina animada cercada dos mimos do pai. Antes de iniciar a narrativa, que prometia ser longa, Dona Dolores com a fala mansa e lúcida pede a filha:

-Feche um pouco a janela, assim o sol não entra tão forte.

No meio de suas palavras percebo o leve sotaque espanhol. Algo que apesar da passagem do tempo ficou na memória.

-Nasci na Espanha, mas vim para cá com 10 anos e aqui morei em várias cidades do interior paulista.

Para ajudar na narrativa da mãe, Terezinha completa a frase já muitas vezes ouvida entre a família. A velhinha parece pensar entre uma palavra, a outra e escolhe as frases. Animada Terezinha exclama:

-Finalmente vão escrever sobre a vida de Mamãe, já não era tarde....

Depois retoma a postura e continua emendando as frases de Dona Dolores. Que em tons lentos continua a narrativa.

-Meu avô não encontrava trabalho lá, então disse que tentaria aqui. Viemos juntos porque éramos muito unidos.

A partir daí a vida dessa espanhola mudaria radicalmente. Acostumada com a vida na roça e comida espanhola estranhou tudo. Por alguns momentos ela para a vista no ar e pareceu pescar algumas lembranças preciosas esquecidas pelo tempo. Após alguns minutos, recordou e em um sobressalto desandou a falar novamente:

-Foi uma vida complicada. Quando chegamos da Espanha a gente não entendia ninguém e estranhávamos muito a comida brasileira. Minha avó não queria comer o arroz, achava muito estranho tantos grãos juntos e sem gosto. Mas com o tempo teve que se acostumar.
Esperei Dona Dolores respirar entre uma palavra e outra, mas ainda ansiosa por saber sobre os seus benzimentos, não parei diante do caminhão barulhento para elaborar a pergunta. Mal terminei e ela já foi contando a sua trajetória de benzedeira, mas foi interrompida pela filha:

-Entrem, minha mãe já vai atender.

Mãe e menino entram na sala e me olham com um olhar atento, esperando uma solução para o problema de saúde. Rafael ainda no colo da mãe parece assustado, mas é conduzido a uma das poltroninhas da sala. Ele senta-se e fica olhando para Dona Dolores mexendo no terço. A mãe espera a benzedeira acabar de colocar o terço no colo para pedir que a benzedeira reze por seu menino.
-Ele não pára de chorar e teve febre a noite toda.

Dona Dolores olha a criança, tira o terço do colo e começa a rezar em suas costas. Faz o sinal da cruz diversas vezes e finalmente pousa os dedos sobre sua testa. Terminada a reza explica:

-É preciso vir mais três vezes senão o benzimento não dá certo.
Logo que termina começa a bocejar, mas isso logo sai, porque ela sempre está rezando.

-Graças a Deus, nada de ruim fica em mim.

Mãe e filho se levantam e é clara a mudança de Rafael. Seu semblante exibe uma expressão mais tranqüila e o soluço silenciou. 

A mãe se despede de Dona Dolores prometendo sua volta na próxima semana para dar continuidade ao tratamento. Antes deles sairem Dona Dolores explicou:


-Podem vir qualquer dia menos nas sextas e dias santos.

Nas sextas-feiras Dona Dolores ensina quem pretende seguir o seu legado, afinal a tradição precisa continuar.....



Fonte: O livro das curiosidades de São Caetano do Sul, Priscila Gorzoni


(ESSE TEXTO NÃO PODE SER COPIADO SEM OS DEVIDOS CRÉDITOS DE AUTORIA, CONFORME A LEGISLAÇÃO DE DIREITOS AUTORAIS LEI 9610, de 19 de fevereiro de 1998, "Dos Direitos Morais do Autor", Artigo 24, Inciso II. POR FAVOR, NÃO COPIEM, COMPARTILHEM O LINK. OBRIGADA)

Fonte: O livro das curiosidades de São Caetano do Sul, Priscila Gorzoni





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