quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

Personagens inusitadas de São Caetano do Sul
Emília de Freitas, de 81 anos
Por: Priscila Gorzoni

 A costureira de Roberto Carlos

                                Foto/Priscila Gorzoni




A aposentada Emília de Freitas, de 81 anos tem orgulho de dizer que já costurou as roupas dos cantores Roberto Carlos e Erasmo Carlos no inicio de suas carreiras. Ela trabalhou como costureira a vida inteira e em uma de suas fases profissionais prestou serviço para uma empresa que consertava as roupas dos famosos.
Mas essa é uma longa história que conto nesse artigo.
Emília é filha de pai português e mãe italiana, nasceu em Mogi das Cruzes onde passou toda a sua infância e juventude. No local tirou o diploma de costureira em um colégio de freiras. Sua rotina na infância se revezava entre as costuras para fora e as brincadeiras na rua. “Brincávamos embaixo da lua, não tinha luz elétrica. Minha mãe criava galinhas, porco, não faltava comida. Somos em 11 irmãs”.
Ela viveu até 16 anos com os pais e se casou no dia 8 de abril de 1950. Emília conheceu o marido no bairro onde morava e passou a namorá-lo em casa. “Naquela época o namoro era totalmente diferente. O namorado vinha à nossa casa só aos sábados e domingos à noite, porque meu pai ficava em casa vigiando. Os únicos passeios que eu fazia era ir às missas aos domingos”.
A ex-costureira morou e trabalhou em várias cidades, a primeira delas foi Santo André, para onde se mudou depois de casada. “Senti falta da família, mas não tinha o que fazer eu ia à casa da minha mãe e voltava chorando. Mas era feliz”.
Passou a morar na casa da sogra porque o marido começou a trabalhar em uma fábrica da cidade. Nessa época teve quatro filhos, um deles morreu. Para ajudar nas despesas da casa trabalhou como costureira para uma oficina de costuras, lá se faziam apenas calças jeans. “Cheguei a fazer muitas calças, nem tenho conta de quantas, só sei que uma vez vieram muitas, mais de 60 calças de uma vez e eu fiz. Só ia embora quanto terminasse o trabalho”.
Foi nessa oficina que Emília costurou as calças de Roberto Carlos e Erasmo Carlos, que começavam a fazer sucesso no cenário musical. “Costurei a primeira calça com a marca do Roberto Carlos. Foi fácil porque eu sei fazer o serviço. Vinham às costuras do Erasmo Carlos e eu sempre fazia, mas nunca os vi. Eu só os via na televisão. Sentia-me bem, porque as minhas costuras deram sorte.”

Os bordados   

Mais tarde a costureira resolveu aprender a bordar e assim criar uma nova forma de ganhar dinheiro. Ela aprendeu a bordar com uma alemã que tinha uma loja em Santo André. A dona da loja dava aulas de costura porque tinha um contrato com as linhas correntes, então quem comprava as linhas poderia fazer as aulas. “Depois que aprendi comecei a vender os meus trabalhos na loja. Vendi muita toalhinha de mão bordada. Não dá para saber quanto tempo demora para fazer cada trabalho porque depende do grau de dificuldade. Tem trabalho que é mais demorado porque é difícil e outros são mais fáceis e rápidos.”
Infelizmente a aposentada parou de bordar há pouco tempo por causa da vista fraca, mas sente muita falta do oficio. “Quanto bordava me sentia muito bem. De presente eu dava os trabalhos que fazia, não precisava comprar, não gastava nada. Hoje eu não tenho dinheiro, não posso comprar presentes, porque é tudo caro.”
A vida financeira de Emília nunca foi fácil. Quando tinha os filhos pequenos o marido precisou fazer muitas horas extras no trabalho para pagar os seus estudos. “Os meus três filhos hoje são formados, mas se espremer o diploma sai sangue. Deu certo, os meus três filhos são engenheiros e estão bem de vida.”
Depois de morar em Santo André, Emília e a família se mudaram para São Bernardo do Campo e ela parou de costurar e começou a bordar. O marido não queria morar em apartamento, mas em casa. Aqui em São Caetano do Sul as casas eram caras, por isso compraram lá. “O meu marido já estava aposentado, porque trabalhava de pintor e soldador e o oficio era insalubre. Com 25 anos ele se aposentou.”
Atualmente a ex-costureira mora em São Caetano do Sul há cinco anos no bairro Santa Maria e tem uma vida muito tranquila. “Fico muito em casa, antes eu bordava, não assistia à televisão, só ouvia o som. Sinto falta, tirava as ideias das revistas, a professora ensinava, você via a professora fazendo, ia e fazia.”, finaliza.

*É jornalista, pesquisadora, historiadora. Formada em jornalismo pela Universidade Metodista, com formação em ciências sociais pela USP e Direito pelo Mackenzie, tem especialização em Fundamentos e Artes pelo Instituto de Artes da UNESP de São Paulo e Mestre em história pela PUC de São Paulo. É autora de 11 livros, entre eles Abre as portas para os Santos Reis da Editora Fundação Pró-Memória, Animais nas Batalhas pela editora Matrix e Os benzedores que benzem com as mãos da editora UCG.

 


segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

Personagens de São Caetano do Sul
Cleide Séspedes de Pinho
Por: Priscila Gorzoni

Quando Nossa Senhora do Rosário chegou ao Bairro Prosperidade



                                                Foto/ Priscila Gorzoni




Cleide Séspedes de Pinho, 68 anos, lembra-se até hoje da chegada de Nossa Senhora do Rosário ao Bairro da Prosperidade. O fato aconteceu em 1950, quando Mário Rodrigues pediu para o irmão comprar uma Santa em Roma, na Itália que devia ser benzida pelo Papa Pio XII. “Ela saiu em novembro 18 de novembro de 1950 de Roma e ficou guardada na casa do seu Silvio Arnese e de outros moradores até a construção da igreja”, recorda.

Em 1953/54 foi colocada a pedra fundamental do templo e teve início  a reunião de documentos necessários para a construção da igreja. “Algum tempo depois, no dia 24 de dezembro de 1954, a igreja foi construída e então a Santa foi entronizada em seu altar. Inclusive eu tenho a nota fiscal comprovando a compra. Mário Rodrigues me deu essa nota fiscal, pois eu trabalhei no escritório dele com contabilidade de 1978 até 91. Por isso tenho muito carinho por esse documento”, conta ela.



Ela era ainda uma menina quando a Igreja da Prosperidade estava sendo construída. Cleide lembra-se da mãe, Assunta Paulina Fiorotti Séspedes e do pai, Valter Sespedes participando ativamente da construção, com tijolos e cimento. “Foi feito um mutirão, eu tinha nove anos e fazia o marmitex. Meu pai fez a primeira eletricidade da igreja. Seu Natalino Lepri, João e seu Nelo foram os pedreiros e ajudaram assim. A dona Nélia, a minha mãe e a dona Laura faziam a comida com outras senhoras e serviam para os trabalhadores”, lembra.

Naquela época o Bairro da Prosperidade era muito alegre, festivo e a Santa estava sempre presente nessas solenidades. “As festas religiosas no Bairro eram a de Nossa Senhora do Rosário, a festa de Nossa Senhora de Fátima, onde se fez o primeiro tapete de pétalas da região, na década de 1960. Nossa Senhora de Fátima veio de Portugal e passou na prosperidade. Sua procissão passou sobre o tapete confeccionado com flores coloridas e pó de café”, narra.


Infância boa, juventude sofrida

Cleide nasceu em São Caetano do Sul, no Bairro da Fundação, perto das Indústrias Matarazzo, no dia 26 de junho de 1945, mas como seu pai fazia aniversário no dia 30, ela foi registrada nesse dia. Os pais são de São Caetano, a mãe nasceu na Rua Rosa, e o pai no Bairro da Fundação. Assunta sua mãe, trabalhou nas Indústrias Matarazzo, como contramestre na fiação até casar-se e ter os filhos. “Ela não trabalhou muito tempo na Matarazzo, pois casou-se em 1940. Meu pai era eletricista e trabalhava em uma fábrica que tinha perto dos trilhos da SPR, era uma Mecânica que tinha ali”, relata.

Embora não trabalhasse, a mãe de Cleide estava sempre envolvida com as atividades da Igreja na Prosperidade. Ela era catequista e até hoje muitos de seus alunos a encontram na rua. “Fui batizada no bairro da Fundação e fiz a minha primeira comunhão na Prosperidade. Também sou filha de Maria. Desde pequena morei na Prosperidade, mas por causa das enchentes mais tarde nos mudamos para o bairro Santa Maria, onde moro atualmente”, conta. 



            Apesar de ter morado em vários bairros da cidade, Cleide guardou as melhores lembranças da Prosperidade. Ela conta que sua família só conseguiu comprar uma casa ali, porque na época os terrenos eram mais baratos. Cleide se lembra muito bem como era o lugar. “A Prosperidade era chamada Vila do sapo, porque tinha muito brejo e estava cheio de sapos. Para cimentar o chão tivemos que pegar cimento de amianto e passar no chão para pisar. Em 1953 tinham poucas casas, era tudo mato. Com três anos ia sozinha na farmácia tomar injeção. Mas não tinha perigo, e nós morávamos no largo, próximo da farmácia e todo mundo tomava conta das crianças. Na Prosperidade nós éramos uma família. Um cuidava dos filhos dos outros. Ninguém sumia. Naquela época não tinha ônibus, o auto bus só chegou depois trazido por Mário Rodrigues. Esse foi o primeiro ônibus, e nessa mesma época foi colocada a pedra fundamental da Igreja. Antes de ter o ônibus nós íamos para a Prosperidade a pé e de bicicleta. Demorava muito. Nós íamos da Gisela até a Prosperidade a pé, minha mãe ia ver o tio dela lá e voltávamos a pé. Na Vila Alpina moravam os parentes da minha mãe, então íamos até a Vila Alpina a pé”, relata.

            Cleide tem saudades de sua infância, ela estudou na primeira escola do Bairro que era de madeira e ficava na Avenida Prosperidade. Eram três turmas, das 8 às 11 horas, 12 às 14 e das 14 às 17. Ela tinha mais irmãos: dois homens e três mulheres: Clóvis, Valdir, Cladys, Cleusa e eu. Apenas o mais velho faleceu. “Nós éramos muito pobres, todo mundo na prosperidade era. Tínhamos amizade com quatro famílias, então as mulheres sentavam nas cadeiras à tarde na rua e nós brincávamos na rua de bater corda, pique, esconde-esconde. Não tínhamos muito sapato, brincávamos descalços, nós juntávamos e fazíamos brinquedos de caixa de sapato. Meus pais compravam bonecas de pano e de papelão. A minha infância foi tranquila, eu fiz até a quarta série, depois só continuava quem tinha dinheiro. Era difícil estudar. Antes da construção da Igreja, todos se reuniam em casa. Vinha um padre fazer uma missa. Quando morria alguém não tinha extrema unção, tínhamos o cemitério da Vila Paula, mas a maioria era enterrada na Vila Linda. Naquela época não tinha caixão, o defunto ia no carro, solto. O que eu gosto mais de me lembrar é da infância, nós tínhamos pouco mas éramos felizes. O meu pai me levava para passear em Santos, tinha o parque Xangai, na Prosperidade. Não tenho o que falar dos meus pais, minha mãe era mais rígida, meu pai não, quem nos educava era a minha mãe, meu pai não ia a igreja, mas ele era mais religioso(cristão) que ela, ele não sabia dizer não”, explica.

            Cleide morou na Prosperidade de 1958 até 82 na Prosperidade. Depois se mudou para Santa Maria por causa das enchentes. Embora Cleide tenha tido uma boa infância, sua juventude não foi nada agradável. Ela sofria preconceito e a perseguição dos colegas da escola, devido a uma deficiência na boca. “Desde pequena eu tive problema na boca e nos dentes. Minha mãe me colocava dentro de uma caixinha de sapato enrolado em algodão, fui batizada às presas porque achavam que eu não viveria três dias. Eu não tinha cálcio. A minha juventude foi diferente da das outras meninas. Não foi fácil, eu sofri muito. Eu tinha problema na boca, nos dentes, eu nunca podia ir ao baile, porque sempre tinha que operar a boca ou estava em repouso de alguma operação. As minhas amigas eram ricas e eu pobre, ia para a escola com as mãos pretas por causa do carvão. Eu era corcunda, por causa do problema que tinha nos ossos. Mas eu superei, cuidei dos meus irmãos porque a minha mãe era muito doente”, relata.

A mãe de Cleide cozinhava bem, fazia arroz, feijão, sopa de feijão, pão, salaminho, pão amanhecido.  Ela misturava a comida italiana com a brasileira, mas só cozinhava quando não estava doente. Cleide começou a cozinhar com nove anos. Mas era durante o Natal que ela e seus irmãos se divertiam comendo os cróstolis da tia e soda limonada com vinho tinto.

Naquela época não tinham tantos médicos, por isso era necessário recorrer às benzedeiras. Ela se lembra das benzedeiras da época, uma delas era Brasilina Lima, que benzia com o auxilio de um terço. “Ela era a mãe da prosperidade. Um dia  meu irmão caiu, sarou mas o braço doía e então eu o levei lá, ela benzeu e ele ficou bom. Ela benzeu a minha irmã a minha mãe teve que conseguir réstia de cebola e erva de Santa Maria para curar a minha irmã”, diz.

A família de Cleide não comprava roupas para os filhos, porque tinham pouco dinheiro. “Nós ganhávamos as roupas das minhas primas. Os sapatos as vezes vinham pequenos por isso íamos descalças para a escola”, lembra. Nos tempos da juventude, ela deu aulas de catecismo e foi dirigente das filhas de Maria. Nessa época usava um vestido branco, fita e uma faixa azul amarrada na cintura.

Cleide casou-se em 1985 e conheceu o marido na casa de Dona Brasilina. “Eu trabalhava lá e ele estava se benzendo. Casei-me com 39 anos e já morava na Santa Maria. Foi uma boa vida, ele era da roça. Tenho apenas um filho que nasceu em 1986, quando tinha quatro anos descobrimos que o meu marido estava com leucemia, cuidei dele que faleceu em 96. Assim que ele morreu a minha mãe teve um AVC, fiquei 10 anos cuidando dela”, relembra. 



                                         Foto/Priscila Gorzoni

Atualmente o filho de Cleide tem 26 anos e é sua única companhia. Ela divide o tempo entre a Liga Católica, da qual faz parte, o curso de cuidadora e as festas na Paróquia São Francisco de Assis. “Viajo com eles, vou às festas da liga, vejo outras pessoas, faço curso de italiano, não fico parada, terminei a escola com 54 anos, quem trabalhou com contabilidade não pode parar”, assegura.

            Cleide se lembra como se fosse hoje da época da emancipação da Prosperidade. Ela conta que quem levantou essa bandeira foi Mário Rodrigues, que fazia parte da Sociedade de Amigos e conhecia os vereadores. “Tudo o que se fez até os dias atuais se deve a Santo André. Inclusive neste poço artesiano em 1960 uns dos vigias caiu e morreu, na época a minha mãe ligou no DAE e acharam o homem morto lá dentro. A minha vizinha dizia que tínhamos tomado água de defunto. Ninguém sabe até hoje o que aconteceu e o poço foi fechado”, relata.

Outro problema sério da Prosperidade eram as enchentes, que pegavam toda a parte baixa da região. As enchentes acabavam com tudo e as pessoas só tinham os amigos para ajudar. Na opinião de Cleide, os políticos nunca deram atenção ao Bairro e Cleide até guardou mágoa de alguns deles, que segundo ela prejudicaram a Prosperidade. “Quem construiu a sede do Vila e do Jabaquara foi o povo em sistema mutirão”, finaliza. 

(ESSE TEXTO NÃO PODE SER COPIADO SEM OS DEVIDOS CRÉDITOS DE AUTORIA, CONFORME A LEGISLAÇÃO DE DIREITOS AUTORAIS LEI 9610, de 19 de fevereiro de 1998, "Dos Direitos Morais do Autor", Artigo 24, Inciso II. POR FAVOR, NÃO COPIEM, COMPARTILHEM O LINK. OBRIGADA) 





*É jornalista, pesquisadora, historiadora. Formada em jornalismo pela Universidade Metodista, com formação em ciências sociais pela USP e Direito pelo Mackenzie, tem especialização em Fundamentos e Artes pelo Instituto de Artes da UNESP de São Paulo e Mestre em história pela PUC de São Paulo. É autora do livro Abre as portas para os Santos Reis da Editora Fundação Pró-Memória, Animais nas Batalhas pela editora Matrix e Os benzedores que benzem com as mãos da editora UCG.








sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

Personagens importantes

Décio Caparroz: o artista dos entalhes
Por: Priscila Gorzoni



Aos poucos os carrinhos, vagões de trens, jardineiras ou arabescos vão surgindo na madeira que recebe os primeiros toques dos formões e das goivas. Do atelier vem o barulho ensurdecedor das batidas na madeira. Em alguns momentos esse ruído silencia, mas depois ele volta com força total.

No controle das ferramentas que deslizam pela madeira clara e cheirosa está o artesão Décio Garcia Caparroz, 73 anos, que nasceu no dia 23 de abril de 1940 em São Caetano do Sul e faz entalhes desde os 11 anos de idade.

A vida de Décio está intimamente ligada à arte de entalhar em madeira. Ele faz de tudo: de placas para churrascarias, portas de fazenda, até pequenas esculturas, sempre em madeira. Um de seus últimos trabalhos foi à réplica, em madeira, da Igreja Metodista que fica na Rua. Amazonas, em São Caetano do Sul. O trabalho fez tanto sucesso que o pastor pediu para o artista doá-la para a igreja.

Qualquer trabalho que faça em madeira é fácil, Décio manipula com maestria as ferramentas de marcenaria e as madeiras. Também não é para menos, ele já fazia vários caminhãozinhos aos 11 anos. O pai de Décio tinha uma padaria na década de 1920 e adorava ensinar o filho a arte de entalhar e esculpir. “Meu pai é espanhol, veio de Almeria, em um navio da marinha. Ele era o cozinheiro do navio e quando chegou à Argentina saiu do navio, e disse: vou fazer uma aventura em terra e pouco tempo depois, chegou no Brasil. Acabou ficando na região das Ruas Caetano Pinto e Carneiro Leão. Como ele tinha aquele dom de cozinhar, montou uma padaria em 1921 São Caetano do Sul, que era um barracão. Ela ficava na Rua São Paulo, 1523, no Bairro Santo Antônio, que naquela época era chamado Bairro Monte Alegre. A especialidade da padaria eram as bolachinhas espanholas chamadas mantecais. Vinha gente de São Paulo buscá-las. Embora o prédio tenha tido algumas modificações, o prédio continua lá. Paralelamente a isso, meu pai fazia escultorinhas em madeira, e nesses caminhõezinhos ele colocava pães doces. A diversão dele era essa. Para ajuda-lo eu cortava o paralaminha, o pneu, e então eu aprendi. Eu tinha 11 para 12 anos e também já fazia móveis. Eu fazia os carrinhos de rolimã. Eu já trabalhava na padaria, fazia pão com 15 anos e tomava conta dos padeiros à noite. Em menino, eu entreguei muito pão e leite. A gente ia entregar o pão, às vezes recebia o dinheiro trocado, quando não vinha o dinheiro trocado, a gente marcava no batente da porta da pessoa, para perceber a honestidade das pessoas.”, lembra.

Décio e a família moravam no fundo da padaria e lá ficou até se casar em 1974. Ele se lembra até hoje de como era diferente a vida e o Bairro. “Nosso vizinho tinha até cavalos que quando fugiam eu costumava montá-los”.

A maioria das ruas não tinha paralelepípedo, mas a Avenida Goiás tinha, mas no centro, porque nas beiradas, era terra. Eu levava muito pão lá, onde era a Prefeitura. Na esquina tinha uma mercearia e a menina se chamava Micaela. Ali a gente entregava porque eles serviam os clientes. Entregava leite de charrete domingo na Praça Cardeal Arco Verde na Rua João Pessoa, Rua. Baraldi para aquelas pessoas que eram clientes do meu pai. Era muito gostoso. Aqui na Rua São Paulo, nós ouvíamos os sinos da Matriz tocarem. Nós falávamos, olha vai começar a missa. Depois tocava as seis, sete e as oito. Nós sabíamos quando o trem chegava. Tudo tinha horário, o trem saia quando o ônibus chegava. O ônibus não vinha até a Vila Gerti, Palmares e Santo André. Ele vinha até o Joanin, era tudo terra e mato. De lá para cá era terra. Eu nasci na Vila Gerti e tinha muitas histórias de assombrações. No estádio era um mato só e tinha muita assombração”, relembra.

            Muitas das histórias assombradas que Décio ouvia vinham da localização da Vila Gerti, que ficava no alto da cidade e por isso quando ventava, fazia barulho. Esse fato deu origem a um nome popular do local: o Morro dos Ventos Uivantes. O artesão conta que: “Ainda hoje quando dá ventania, se ouvem os fios da Eletropaulo assobiar. Naquela época por conta da terraplanagem, aquele vento fazia a poeira ficar em formato de redemoinho e a criançada acreditava que era o Saci Pererê. Precisava pegar uma peneira para pegá-lo. Eu vinha ao estádio para ver se eu via o saci, mas não vimos nada, só aquele redemoinho e poeira”, lembra.

            Outra história que marcou a infância de Caparroz aconteceu quando tinha 10 anos e era a época da Guerra. “Passava tudo na minha rua, os aviões, tanques de guerra, cavalaria. Nessa época eu comecei e me entender como gente. Passavam arrastando os pés, ronco que doía o coração, eles armados, era guerra lá, mas os brasileiros que estavam para partir precisavam treinar aqui”, explica.

Mais tarde, já na adolescência, o artista começou a viajar pelo Brasil. Décio conta que viajava muito de trem, e que para conhecer o funcionamento desse meio de transporte chegou a viajar junto com o maquinista. Ele coordenava as suas viagens com o trabalho na padaria do pai.

Em 1976, Caparroz conseguiu um emprego na General Motors e largou a padaria. “Trabalhei em várias outras indústrias e me aposentei aos 64 anos, por tempo de serviço. Na época em que estava nas empresas sempre fazia os carrinhos de madeira e dava aos meus amigos. Todo mundo queria e eu fazia tudo a mão”, relembra.

Vida de artista

            Atualmente a rotina de Décio é dedicada exclusivamente aos entalhes e confecções de objetos em madeira. Ele e a esposa Laíde Irene Sasso, 69 anos trabalham juntos. Décio fabrica os objetos e Laíde faz as pinturas.

 Quando a pessoa encomenda a peça, o artesão define ao cliente o que pode ser feito na madeira. “Procuro tirar da cabeça das pessoas o que ele quer. Eu faço o que você me pedir, mesmo que eu leve cinco dias, se eu não tenho o desenho na hora eu vou procurar. O meu carro chefe é o entalhe, eu aprendi vendo. Primeiro precisa fazer o desenho no lápis e depois com as ferramentas eu vou cortando. Já peguei até brasão de família e serviço em Nova Iorque para uma academia de tatuagem. O entalhe eu faço há uns 10 a 12 anos. As pessoas apareciam pedindo uma entrada de chácara. O entalhe me atraiu pela procura, como é um trabalho muito rico, eu comecei a fazer e colocar frases de efeito, coisa que a família gosta. Muitas vezes a pessoa pede as placas com o nome de alguém da família. Então eu procuro fazer o que posso. No entalhe eu não tenho dificuldade, já fiz de tudo”, conta.
Para entalhar, Décio usa as ferramentas de marcenaria, como as goivas, formões, os ferros a cantos, entre outros. O processo é simples, mas requer prática e cuidado. Primeiro o artesão faz o desenho e depois começo cavar a madeira sobre o risco. Existem alguns detalhes importantes no desbaste da madeira. Décio explica: “A árvore cresce para cima, e suas fibras estão de cima para baixo ou ao contrário, você tem que ir a favor do seu veio. O tempo de confecção de um trabalho depende de quanto tempo eu fico nele. Em geral eu fico uma hora por dia, por causa das costas. Não compensa ficar a tarde toda, é um trabalho braçal. Eu gosto de buscar pão, ir à quitanda, se eu ficar direto eu não tenho energia para fazer outras coisas”, exemplifica.

Em relação à escolha das madeiras, Décio é cuidadoso e costuma ir às madeireiras para comprar o material, em especial o cedro.

Outro trabalho que o artesão costuma fazer é a marchetaria, que embora seja mais leve é trabalhoso. Essa técnica usa as folhas de madeiras. É necessário de duas ou três cores de folhas para dar o efeito. A inspiração vem da cabeça. “Eu vou colando a fita crepe atrás das folhas de madeira como se montasse um quebra-cabeça. Vou encaixando, é a coisa mais simples do mundo, mas é preciso ter uma medida”, conta.

Para facilitar o trabalho e dar conta das encomendas, Caparroz criou uma estrutura para a sua produção. Tira um dia inteiro para cortar todas as madeiras ou folhas de madeiras. Em outro dia faz a montagens e, por fim, as pinturas. Peças como os oratórios de madeira que têm boas venda, ele consegue fazer em dois a três dias. “Tem temporada que é mais devagar, de janeiro a julho, é fraco, mas no final de ano, é uma época boa. Começam as aulas, fica fraco o trabalho. De junho para frente, eu começo a vender. Levo as obras para a galeria que fica abaixo da Estação de trem e ali, pego encomenda todos os dias. Trabalhei muitos anos na Praça da República e adorei, lá é muito bom. Tem gente que chegava lá e comprava até 10 trabalhos. É muito bom, você conhece todo mundo. Eu fiz um tabuleiro grande de xadrez e coloquei lá. As pessoas vinham e perguntavam se podiam mexer e acabei ficando muito famoso assim”, explica.

Os números das produções de Décio ultrapassam a timidez, ele já fez mais de 2500 casinhas.
Além delas, ganham destaque os jogos de xadrez em madeira, que ganharam um toque personalizado nas mãos de Décio. Ele leva de 8 a 9 dias para confecciona-los. “As peças são praticamente todas redondas e no torno é rápido fazê-las”, finaliza.


*É jornalista, pesquisadora, historiadora. Formada em jornalismo pela Universidade Metodista, com formação em ciências sociais pela USP e Direito pelo Mackenzie, tem especialização em Fundamentos e Artes pelo Instituto de Artes da UNESP de São Paulo e Mestre em história pela PUC de São Paulo. É autora do livro Abre as portas para os Santos Reis da Editora Fundação Pró-Memória, Animais nas Batalhas pela editora Matrix e Os benzedores que benzem com as mãos da editora UCG.




 (ESSE TEXTO NÃO PODE SER COPIADO SEM OS DEVIDOS CRÉDITOS DE AUTORIA, CONFORME A LEGISLAÇÃO DE DIREITOS AUTORAIS LEI 9610, de 19 de fevereiro de 1998, "Dos Direitos Morais do Autor", Artigo 24, Inciso II. POR FAVOR, NÃO COPIEM, COMPARTILHEM O LINK. OBRIGADA)            

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