segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

Personagens de São Caetano do Sul
Cleide Séspedes de Pinho
Por: Priscila Gorzoni

Quando Nossa Senhora do Rosário chegou ao Bairro Prosperidade



                                                Foto/ Priscila Gorzoni




Cleide Séspedes de Pinho, 68 anos, lembra-se até hoje da chegada de Nossa Senhora do Rosário ao Bairro da Prosperidade. O fato aconteceu em 1950, quando Mário Rodrigues pediu para o irmão comprar uma Santa em Roma, na Itália que devia ser benzida pelo Papa Pio XII. “Ela saiu em novembro 18 de novembro de 1950 de Roma e ficou guardada na casa do seu Silvio Arnese e de outros moradores até a construção da igreja”, recorda.

Em 1953/54 foi colocada a pedra fundamental do templo e teve início  a reunião de documentos necessários para a construção da igreja. “Algum tempo depois, no dia 24 de dezembro de 1954, a igreja foi construída e então a Santa foi entronizada em seu altar. Inclusive eu tenho a nota fiscal comprovando a compra. Mário Rodrigues me deu essa nota fiscal, pois eu trabalhei no escritório dele com contabilidade de 1978 até 91. Por isso tenho muito carinho por esse documento”, conta ela.



Ela era ainda uma menina quando a Igreja da Prosperidade estava sendo construída. Cleide lembra-se da mãe, Assunta Paulina Fiorotti Séspedes e do pai, Valter Sespedes participando ativamente da construção, com tijolos e cimento. “Foi feito um mutirão, eu tinha nove anos e fazia o marmitex. Meu pai fez a primeira eletricidade da igreja. Seu Natalino Lepri, João e seu Nelo foram os pedreiros e ajudaram assim. A dona Nélia, a minha mãe e a dona Laura faziam a comida com outras senhoras e serviam para os trabalhadores”, lembra.

Naquela época o Bairro da Prosperidade era muito alegre, festivo e a Santa estava sempre presente nessas solenidades. “As festas religiosas no Bairro eram a de Nossa Senhora do Rosário, a festa de Nossa Senhora de Fátima, onde se fez o primeiro tapete de pétalas da região, na década de 1960. Nossa Senhora de Fátima veio de Portugal e passou na prosperidade. Sua procissão passou sobre o tapete confeccionado com flores coloridas e pó de café”, narra.


Infância boa, juventude sofrida

Cleide nasceu em São Caetano do Sul, no Bairro da Fundação, perto das Indústrias Matarazzo, no dia 26 de junho de 1945, mas como seu pai fazia aniversário no dia 30, ela foi registrada nesse dia. Os pais são de São Caetano, a mãe nasceu na Rua Rosa, e o pai no Bairro da Fundação. Assunta sua mãe, trabalhou nas Indústrias Matarazzo, como contramestre na fiação até casar-se e ter os filhos. “Ela não trabalhou muito tempo na Matarazzo, pois casou-se em 1940. Meu pai era eletricista e trabalhava em uma fábrica que tinha perto dos trilhos da SPR, era uma Mecânica que tinha ali”, relata.

Embora não trabalhasse, a mãe de Cleide estava sempre envolvida com as atividades da Igreja na Prosperidade. Ela era catequista e até hoje muitos de seus alunos a encontram na rua. “Fui batizada no bairro da Fundação e fiz a minha primeira comunhão na Prosperidade. Também sou filha de Maria. Desde pequena morei na Prosperidade, mas por causa das enchentes mais tarde nos mudamos para o bairro Santa Maria, onde moro atualmente”, conta. 



            Apesar de ter morado em vários bairros da cidade, Cleide guardou as melhores lembranças da Prosperidade. Ela conta que sua família só conseguiu comprar uma casa ali, porque na época os terrenos eram mais baratos. Cleide se lembra muito bem como era o lugar. “A Prosperidade era chamada Vila do sapo, porque tinha muito brejo e estava cheio de sapos. Para cimentar o chão tivemos que pegar cimento de amianto e passar no chão para pisar. Em 1953 tinham poucas casas, era tudo mato. Com três anos ia sozinha na farmácia tomar injeção. Mas não tinha perigo, e nós morávamos no largo, próximo da farmácia e todo mundo tomava conta das crianças. Na Prosperidade nós éramos uma família. Um cuidava dos filhos dos outros. Ninguém sumia. Naquela época não tinha ônibus, o auto bus só chegou depois trazido por Mário Rodrigues. Esse foi o primeiro ônibus, e nessa mesma época foi colocada a pedra fundamental da Igreja. Antes de ter o ônibus nós íamos para a Prosperidade a pé e de bicicleta. Demorava muito. Nós íamos da Gisela até a Prosperidade a pé, minha mãe ia ver o tio dela lá e voltávamos a pé. Na Vila Alpina moravam os parentes da minha mãe, então íamos até a Vila Alpina a pé”, relata.

            Cleide tem saudades de sua infância, ela estudou na primeira escola do Bairro que era de madeira e ficava na Avenida Prosperidade. Eram três turmas, das 8 às 11 horas, 12 às 14 e das 14 às 17. Ela tinha mais irmãos: dois homens e três mulheres: Clóvis, Valdir, Cladys, Cleusa e eu. Apenas o mais velho faleceu. “Nós éramos muito pobres, todo mundo na prosperidade era. Tínhamos amizade com quatro famílias, então as mulheres sentavam nas cadeiras à tarde na rua e nós brincávamos na rua de bater corda, pique, esconde-esconde. Não tínhamos muito sapato, brincávamos descalços, nós juntávamos e fazíamos brinquedos de caixa de sapato. Meus pais compravam bonecas de pano e de papelão. A minha infância foi tranquila, eu fiz até a quarta série, depois só continuava quem tinha dinheiro. Era difícil estudar. Antes da construção da Igreja, todos se reuniam em casa. Vinha um padre fazer uma missa. Quando morria alguém não tinha extrema unção, tínhamos o cemitério da Vila Paula, mas a maioria era enterrada na Vila Linda. Naquela época não tinha caixão, o defunto ia no carro, solto. O que eu gosto mais de me lembrar é da infância, nós tínhamos pouco mas éramos felizes. O meu pai me levava para passear em Santos, tinha o parque Xangai, na Prosperidade. Não tenho o que falar dos meus pais, minha mãe era mais rígida, meu pai não, quem nos educava era a minha mãe, meu pai não ia a igreja, mas ele era mais religioso(cristão) que ela, ele não sabia dizer não”, explica.

            Cleide morou na Prosperidade de 1958 até 82 na Prosperidade. Depois se mudou para Santa Maria por causa das enchentes. Embora Cleide tenha tido uma boa infância, sua juventude não foi nada agradável. Ela sofria preconceito e a perseguição dos colegas da escola, devido a uma deficiência na boca. “Desde pequena eu tive problema na boca e nos dentes. Minha mãe me colocava dentro de uma caixinha de sapato enrolado em algodão, fui batizada às presas porque achavam que eu não viveria três dias. Eu não tinha cálcio. A minha juventude foi diferente da das outras meninas. Não foi fácil, eu sofri muito. Eu tinha problema na boca, nos dentes, eu nunca podia ir ao baile, porque sempre tinha que operar a boca ou estava em repouso de alguma operação. As minhas amigas eram ricas e eu pobre, ia para a escola com as mãos pretas por causa do carvão. Eu era corcunda, por causa do problema que tinha nos ossos. Mas eu superei, cuidei dos meus irmãos porque a minha mãe era muito doente”, relata.

A mãe de Cleide cozinhava bem, fazia arroz, feijão, sopa de feijão, pão, salaminho, pão amanhecido.  Ela misturava a comida italiana com a brasileira, mas só cozinhava quando não estava doente. Cleide começou a cozinhar com nove anos. Mas era durante o Natal que ela e seus irmãos se divertiam comendo os cróstolis da tia e soda limonada com vinho tinto.

Naquela época não tinham tantos médicos, por isso era necessário recorrer às benzedeiras. Ela se lembra das benzedeiras da época, uma delas era Brasilina Lima, que benzia com o auxilio de um terço. “Ela era a mãe da prosperidade. Um dia  meu irmão caiu, sarou mas o braço doía e então eu o levei lá, ela benzeu e ele ficou bom. Ela benzeu a minha irmã a minha mãe teve que conseguir réstia de cebola e erva de Santa Maria para curar a minha irmã”, diz.

A família de Cleide não comprava roupas para os filhos, porque tinham pouco dinheiro. “Nós ganhávamos as roupas das minhas primas. Os sapatos as vezes vinham pequenos por isso íamos descalças para a escola”, lembra. Nos tempos da juventude, ela deu aulas de catecismo e foi dirigente das filhas de Maria. Nessa época usava um vestido branco, fita e uma faixa azul amarrada na cintura.

Cleide casou-se em 1985 e conheceu o marido na casa de Dona Brasilina. “Eu trabalhava lá e ele estava se benzendo. Casei-me com 39 anos e já morava na Santa Maria. Foi uma boa vida, ele era da roça. Tenho apenas um filho que nasceu em 1986, quando tinha quatro anos descobrimos que o meu marido estava com leucemia, cuidei dele que faleceu em 96. Assim que ele morreu a minha mãe teve um AVC, fiquei 10 anos cuidando dela”, relembra. 



                                         Foto/Priscila Gorzoni

Atualmente o filho de Cleide tem 26 anos e é sua única companhia. Ela divide o tempo entre a Liga Católica, da qual faz parte, o curso de cuidadora e as festas na Paróquia São Francisco de Assis. “Viajo com eles, vou às festas da liga, vejo outras pessoas, faço curso de italiano, não fico parada, terminei a escola com 54 anos, quem trabalhou com contabilidade não pode parar”, assegura.

            Cleide se lembra como se fosse hoje da época da emancipação da Prosperidade. Ela conta que quem levantou essa bandeira foi Mário Rodrigues, que fazia parte da Sociedade de Amigos e conhecia os vereadores. “Tudo o que se fez até os dias atuais se deve a Santo André. Inclusive neste poço artesiano em 1960 uns dos vigias caiu e morreu, na época a minha mãe ligou no DAE e acharam o homem morto lá dentro. A minha vizinha dizia que tínhamos tomado água de defunto. Ninguém sabe até hoje o que aconteceu e o poço foi fechado”, relata.

Outro problema sério da Prosperidade eram as enchentes, que pegavam toda a parte baixa da região. As enchentes acabavam com tudo e as pessoas só tinham os amigos para ajudar. Na opinião de Cleide, os políticos nunca deram atenção ao Bairro e Cleide até guardou mágoa de alguns deles, que segundo ela prejudicaram a Prosperidade. “Quem construiu a sede do Vila e do Jabaquara foi o povo em sistema mutirão”, finaliza. 

(ESSE TEXTO NÃO PODE SER COPIADO SEM OS DEVIDOS CRÉDITOS DE AUTORIA, CONFORME A LEGISLAÇÃO DE DIREITOS AUTORAIS LEI 9610, de 19 de fevereiro de 1998, "Dos Direitos Morais do Autor", Artigo 24, Inciso II. POR FAVOR, NÃO COPIEM, COMPARTILHEM O LINK. OBRIGADA) 





*É jornalista, pesquisadora, historiadora. Formada em jornalismo pela Universidade Metodista, com formação em ciências sociais pela USP e Direito pelo Mackenzie, tem especialização em Fundamentos e Artes pelo Instituto de Artes da UNESP de São Paulo e Mestre em história pela PUC de São Paulo. É autora do livro Abre as portas para os Santos Reis da Editora Fundação Pró-Memória, Animais nas Batalhas pela editora Matrix e Os benzedores que benzem com as mãos da editora UCG.








Nenhum comentário:

Postar um comentário

A população do Núcleo Colonial em 1877 Por: Priscila Gorzoni  Você sabia? Em 1888 já havia no Núcleo Colonial (primeira formação de...