sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

Personagens importantes

Décio Caparroz: o artista dos entalhes
Por: Priscila Gorzoni



Aos poucos os carrinhos, vagões de trens, jardineiras ou arabescos vão surgindo na madeira que recebe os primeiros toques dos formões e das goivas. Do atelier vem o barulho ensurdecedor das batidas na madeira. Em alguns momentos esse ruído silencia, mas depois ele volta com força total.

No controle das ferramentas que deslizam pela madeira clara e cheirosa está o artesão Décio Garcia Caparroz, 73 anos, que nasceu no dia 23 de abril de 1940 em São Caetano do Sul e faz entalhes desde os 11 anos de idade.

A vida de Décio está intimamente ligada à arte de entalhar em madeira. Ele faz de tudo: de placas para churrascarias, portas de fazenda, até pequenas esculturas, sempre em madeira. Um de seus últimos trabalhos foi à réplica, em madeira, da Igreja Metodista que fica na Rua. Amazonas, em São Caetano do Sul. O trabalho fez tanto sucesso que o pastor pediu para o artista doá-la para a igreja.

Qualquer trabalho que faça em madeira é fácil, Décio manipula com maestria as ferramentas de marcenaria e as madeiras. Também não é para menos, ele já fazia vários caminhãozinhos aos 11 anos. O pai de Décio tinha uma padaria na década de 1920 e adorava ensinar o filho a arte de entalhar e esculpir. “Meu pai é espanhol, veio de Almeria, em um navio da marinha. Ele era o cozinheiro do navio e quando chegou à Argentina saiu do navio, e disse: vou fazer uma aventura em terra e pouco tempo depois, chegou no Brasil. Acabou ficando na região das Ruas Caetano Pinto e Carneiro Leão. Como ele tinha aquele dom de cozinhar, montou uma padaria em 1921 São Caetano do Sul, que era um barracão. Ela ficava na Rua São Paulo, 1523, no Bairro Santo Antônio, que naquela época era chamado Bairro Monte Alegre. A especialidade da padaria eram as bolachinhas espanholas chamadas mantecais. Vinha gente de São Paulo buscá-las. Embora o prédio tenha tido algumas modificações, o prédio continua lá. Paralelamente a isso, meu pai fazia escultorinhas em madeira, e nesses caminhõezinhos ele colocava pães doces. A diversão dele era essa. Para ajuda-lo eu cortava o paralaminha, o pneu, e então eu aprendi. Eu tinha 11 para 12 anos e também já fazia móveis. Eu fazia os carrinhos de rolimã. Eu já trabalhava na padaria, fazia pão com 15 anos e tomava conta dos padeiros à noite. Em menino, eu entreguei muito pão e leite. A gente ia entregar o pão, às vezes recebia o dinheiro trocado, quando não vinha o dinheiro trocado, a gente marcava no batente da porta da pessoa, para perceber a honestidade das pessoas.”, lembra.

Décio e a família moravam no fundo da padaria e lá ficou até se casar em 1974. Ele se lembra até hoje de como era diferente a vida e o Bairro. “Nosso vizinho tinha até cavalos que quando fugiam eu costumava montá-los”.

A maioria das ruas não tinha paralelepípedo, mas a Avenida Goiás tinha, mas no centro, porque nas beiradas, era terra. Eu levava muito pão lá, onde era a Prefeitura. Na esquina tinha uma mercearia e a menina se chamava Micaela. Ali a gente entregava porque eles serviam os clientes. Entregava leite de charrete domingo na Praça Cardeal Arco Verde na Rua João Pessoa, Rua. Baraldi para aquelas pessoas que eram clientes do meu pai. Era muito gostoso. Aqui na Rua São Paulo, nós ouvíamos os sinos da Matriz tocarem. Nós falávamos, olha vai começar a missa. Depois tocava as seis, sete e as oito. Nós sabíamos quando o trem chegava. Tudo tinha horário, o trem saia quando o ônibus chegava. O ônibus não vinha até a Vila Gerti, Palmares e Santo André. Ele vinha até o Joanin, era tudo terra e mato. De lá para cá era terra. Eu nasci na Vila Gerti e tinha muitas histórias de assombrações. No estádio era um mato só e tinha muita assombração”, relembra.

            Muitas das histórias assombradas que Décio ouvia vinham da localização da Vila Gerti, que ficava no alto da cidade e por isso quando ventava, fazia barulho. Esse fato deu origem a um nome popular do local: o Morro dos Ventos Uivantes. O artesão conta que: “Ainda hoje quando dá ventania, se ouvem os fios da Eletropaulo assobiar. Naquela época por conta da terraplanagem, aquele vento fazia a poeira ficar em formato de redemoinho e a criançada acreditava que era o Saci Pererê. Precisava pegar uma peneira para pegá-lo. Eu vinha ao estádio para ver se eu via o saci, mas não vimos nada, só aquele redemoinho e poeira”, lembra.

            Outra história que marcou a infância de Caparroz aconteceu quando tinha 10 anos e era a época da Guerra. “Passava tudo na minha rua, os aviões, tanques de guerra, cavalaria. Nessa época eu comecei e me entender como gente. Passavam arrastando os pés, ronco que doía o coração, eles armados, era guerra lá, mas os brasileiros que estavam para partir precisavam treinar aqui”, explica.

Mais tarde, já na adolescência, o artista começou a viajar pelo Brasil. Décio conta que viajava muito de trem, e que para conhecer o funcionamento desse meio de transporte chegou a viajar junto com o maquinista. Ele coordenava as suas viagens com o trabalho na padaria do pai.

Em 1976, Caparroz conseguiu um emprego na General Motors e largou a padaria. “Trabalhei em várias outras indústrias e me aposentei aos 64 anos, por tempo de serviço. Na época em que estava nas empresas sempre fazia os carrinhos de madeira e dava aos meus amigos. Todo mundo queria e eu fazia tudo a mão”, relembra.

Vida de artista

            Atualmente a rotina de Décio é dedicada exclusivamente aos entalhes e confecções de objetos em madeira. Ele e a esposa Laíde Irene Sasso, 69 anos trabalham juntos. Décio fabrica os objetos e Laíde faz as pinturas.

 Quando a pessoa encomenda a peça, o artesão define ao cliente o que pode ser feito na madeira. “Procuro tirar da cabeça das pessoas o que ele quer. Eu faço o que você me pedir, mesmo que eu leve cinco dias, se eu não tenho o desenho na hora eu vou procurar. O meu carro chefe é o entalhe, eu aprendi vendo. Primeiro precisa fazer o desenho no lápis e depois com as ferramentas eu vou cortando. Já peguei até brasão de família e serviço em Nova Iorque para uma academia de tatuagem. O entalhe eu faço há uns 10 a 12 anos. As pessoas apareciam pedindo uma entrada de chácara. O entalhe me atraiu pela procura, como é um trabalho muito rico, eu comecei a fazer e colocar frases de efeito, coisa que a família gosta. Muitas vezes a pessoa pede as placas com o nome de alguém da família. Então eu procuro fazer o que posso. No entalhe eu não tenho dificuldade, já fiz de tudo”, conta.
Para entalhar, Décio usa as ferramentas de marcenaria, como as goivas, formões, os ferros a cantos, entre outros. O processo é simples, mas requer prática e cuidado. Primeiro o artesão faz o desenho e depois começo cavar a madeira sobre o risco. Existem alguns detalhes importantes no desbaste da madeira. Décio explica: “A árvore cresce para cima, e suas fibras estão de cima para baixo ou ao contrário, você tem que ir a favor do seu veio. O tempo de confecção de um trabalho depende de quanto tempo eu fico nele. Em geral eu fico uma hora por dia, por causa das costas. Não compensa ficar a tarde toda, é um trabalho braçal. Eu gosto de buscar pão, ir à quitanda, se eu ficar direto eu não tenho energia para fazer outras coisas”, exemplifica.

Em relação à escolha das madeiras, Décio é cuidadoso e costuma ir às madeireiras para comprar o material, em especial o cedro.

Outro trabalho que o artesão costuma fazer é a marchetaria, que embora seja mais leve é trabalhoso. Essa técnica usa as folhas de madeiras. É necessário de duas ou três cores de folhas para dar o efeito. A inspiração vem da cabeça. “Eu vou colando a fita crepe atrás das folhas de madeira como se montasse um quebra-cabeça. Vou encaixando, é a coisa mais simples do mundo, mas é preciso ter uma medida”, conta.

Para facilitar o trabalho e dar conta das encomendas, Caparroz criou uma estrutura para a sua produção. Tira um dia inteiro para cortar todas as madeiras ou folhas de madeiras. Em outro dia faz a montagens e, por fim, as pinturas. Peças como os oratórios de madeira que têm boas venda, ele consegue fazer em dois a três dias. “Tem temporada que é mais devagar, de janeiro a julho, é fraco, mas no final de ano, é uma época boa. Começam as aulas, fica fraco o trabalho. De junho para frente, eu começo a vender. Levo as obras para a galeria que fica abaixo da Estação de trem e ali, pego encomenda todos os dias. Trabalhei muitos anos na Praça da República e adorei, lá é muito bom. Tem gente que chegava lá e comprava até 10 trabalhos. É muito bom, você conhece todo mundo. Eu fiz um tabuleiro grande de xadrez e coloquei lá. As pessoas vinham e perguntavam se podiam mexer e acabei ficando muito famoso assim”, explica.

Os números das produções de Décio ultrapassam a timidez, ele já fez mais de 2500 casinhas.
Além delas, ganham destaque os jogos de xadrez em madeira, que ganharam um toque personalizado nas mãos de Décio. Ele leva de 8 a 9 dias para confecciona-los. “As peças são praticamente todas redondas e no torno é rápido fazê-las”, finaliza.


*É jornalista, pesquisadora, historiadora. Formada em jornalismo pela Universidade Metodista, com formação em ciências sociais pela USP e Direito pelo Mackenzie, tem especialização em Fundamentos e Artes pelo Instituto de Artes da UNESP de São Paulo e Mestre em história pela PUC de São Paulo. É autora do livro Abre as portas para os Santos Reis da Editora Fundação Pró-Memória, Animais nas Batalhas pela editora Matrix e Os benzedores que benzem com as mãos da editora UCG.




 (ESSE TEXTO NÃO PODE SER COPIADO SEM OS DEVIDOS CRÉDITOS DE AUTORIA, CONFORME A LEGISLAÇÃO DE DIREITOS AUTORAIS LEI 9610, de 19 de fevereiro de 1998, "Dos Direitos Morais do Autor", Artigo 24, Inciso II. POR FAVOR, NÃO COPIEM, COMPARTILHEM O LINK. OBRIGADA)            

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