quinta-feira, 5 de maio de 2016

Contos de trens
Por: Priscila Gorzoni



Não são nem dez da manhã e já cheguei na plataforma da estação de trem de São Caetano, que está cheia. Pessoas com bagagens, famílias grandes, mulheres de idade se espalham pelos bancos de ferro que lembram as douradas épocas das viagens de trens. Quando viajar de trem era sinal de riqueza. Na minha infância me lembro da placa branca que anunciava a estação, hoje substituída por uma tabela marrom dependurada ao vento. Boa parte das pessoas toma o mesmo rumo que eu, a estação da Luz, onde milhares de passageiros descem para fazer suas baldeações, compras ou trabalhar nas fábricas da região desde o século passado. Essa mesma estação que nasceu no dia 1 de maio de 1883 carrega muitas histórias, narrativas de meus pais, tios e personagens conhecidos da cidade, uma delas é Assunta de 95 anos que ainda ontem me contava como era a estação.
-Havia duas porteiras em suas laterais uma de saída e a outra de entrada, para não dar confusão um guarda ficava ali cuidado da passagem.
O ritmo dos trens também era outro, aliás como o ritmo de nossa vida. Eles não passavam todas as horas, mas em horários pré-determinados de acordo com os dias da semana. Mas ainda assim ele era bem concorrido. Dona Assunta se lembra muito bem dele. Ela morava na Rua. Amazonas que era cercada por mato e para não se atrasar pegava uma jardineira até a estação.
-Naquela época não tinha o perigo. As crianças costumavam brincar dentro das estações de trens.
Enquanto me lembro das histórias de Dona Assunta já estou sentada dentro do ´carro` que parte para a Lapa. Lá vejo um menino carregado de chocolates anunciando o seu comércio:
-Aproveitem é só hoje. Leva 10 e paga um real.....
O garoto que parece aparentar menos de 15 anos é magro e repete várias vezes em altos brandos a mesma frase. Ao seu lado vem o irmãozinho tentando aprender sua futura profissão. A mãe sentada observa os dois, um retrato típico e lamentável do país. Fico imaginando como seriam naquela época as paisagens da janela. Na certa não seriam como as de hoje, ruínas das fábricas e restos de vagões abandonados. Do outro lado quase que esbarra no garotinho dos chocolates, vem um homem gordo com uma sacola nos ombros, ele anuncia o bom preço de suas revistas de medicina caseira.
-Dois reais cada, aproveitem. Tem receita para dor de barriga, dor de cabeça e até mau olhado.....
No passado o trem sempre foi sinônimo de requinte e romantismo. Segundo Caetano, 80 anos que morou durante toda a sua infância a 50 metros da estação, ela era linda.
-Inteira de tijolos aparentes, tinha uma leve semelhança com a Estação da Luz. As plataformas eram amplas e os portões inicialmente de ferro. O que fazia barulho era quando os trens passavam. Naquele tempo os trens eram movidos a carvão coqui, que vinha do Chile, mas durante a Primeira Guerra Mundial o carvão faltou e criou grandes problemas. Seu Caetano se lembra bem das ferrovias de antigamente e da estação da cidade. Ele morava bem perto da estação, que era chamada de curva do Matarazzo. A estação começava na Lapa e ia até depois de Jundiaí, de lá se iniciava a estada de ferro Paulista e de Campinas saia a Mogiana até Poços de Caldas.
O pai de Seu Caetano era um artesão talentoso, que montava sapatos manualmente e por isso o garoto precisava ir ao Brás toda a semana para lhe comprar os materiais.
-Com uma lista escrita a mão eu ia de trem até o Brás com apenas 9 anos. Eu me sentava em um banco de palha revestido por franja e só pagava uma vez 300 res pela viagem.
Os trens tocavam um sininho quando chegavam, assim se anunciavam e preveniam os que estavam nos trilhos. Mesmo assim muita gente morreu vitimado pelo Expresso, trem especial que ia direto para Santos.
-Nos finais de semana nós íamos passear em Santos, então tomávamos o trem em Santo André às 6 horas para pegar o Expresso das 6:30. Chegávamos em Santos ás 8 da manhã e ainda éramos brindados por uma paisagem esplendorosa com imensas plantações de bananas e barcos para a exportação.
Na ferrovia moravam vários funcionários entre eles o chefe da estação, que usava um chapéu vermelho. Eles tinham suas casas ao lado da estação com o tempo isso também mudou. Por outro lado, os trens eram locais de grandes romances, alguns até acabaram em casamento como no caso dos meus tios. Fiquei sabendo que eles haviam se conhecido na estação de trem de São Caetano. Meu tio me contou que pegava sempre o trem no mesmo horário de minha tia e um dia reparou nela com mais atenção. Passou então a observa-la, mas demorou um certo tempo para que ela percebesse a sua presença. Então ele começou a fazer a corte e a conquistou. Hoje o trem de São Caetano já não tem todo esse glamour, mas continua sendo um dos meios mais econômicos de locomoção e um retrato real do Brasil. Quando levanto os meus olhos já estou novamente em São Caetano e como é bom estar em casa novamente pelos trilhos do trem. Lá vai ele outra vez levar outras histórias, outras memórias....


(ESSE TEXTO NÃO PODE SER COPIADO SEM OS DEVIDOS CRÉDITOS DE AUTORIA, CONFORME A LEGISLAÇÃO DE DIREITOS AUTORAIS LEI 9610, de 19 de fevereiro de 1998, "Dos Direitos Morais do Autor", Artigo 24, Inciso II. POR FAVOR, NÃO COPIEM, COMPARTILHEM O LINK. OBRIGADA)  


Fonte: O livro das curiosidades de São Caetano do Sul, Priscila Gorzoni

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